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Populismo, fascismo e os excluídos da globalização

Populismo, fascismo e os excluídos da globalização

O professor de História Federico Finchelstein, que ensina em Nova Iorque, estuda, de forma monumental, a relação entre o fascismo e o populismo, a sua etiologia, desenvolvimento, actuais perspectivas e de futuro em “Do fas

cismo ao populismo na História”. Uma obra que devia ser de leitura obrigatória no ensino secundário, numa disciplina de História das Ideias Políticas ou noutra de Noções Básicas de Direito e de Organização do Estado, duas pechas que impedem a construção de cidadãos informados.

O tema presta-se a derivações sentimentais e é normal que o seja, pois a relação que intercede entre o populismo e os movimentos fascistas está no âmago do coração dos seres humanos. O actual momento, de entre outros factores, conhece nos proscritos da globalização uma das suas molas propulsoras, pois o desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação criou uma legião de infoexcluídos, de gente que perdeu o trabalho para máquinas ou que viu a laboração de vários ser desempenhada por um. A pandemia intensificou o teletrabalho e prepara-se para ser, involuntariamente, com a crise económica e a fome que campeiam, mais um terreno fértil.

Ser populista significa dizer/fazer aquilo que as pessoas querem ouvir. Nesta definição infantil, todos os políticos o são, uma vez que o voto depende de uma identificação mínima do eleitor com o candidato. Mas não é nesta perspectiva que a Ciência Política elabora o conceito. Referimo-nos àqueles que aproveitam nichos de oportunidade, insatisfações, desgraças, desequilíbrios estruturais ou conjunturais, para afirmarem ideias que surgem como uma solução fácil e evidente a problemas muito complexos, como a imigração, o terrorismo, aa segurança pública, o modo como prevenimos e reprimimos o crime. E a solução oferecida passa, assim, por um fechamento sobre si, pela identificação de inimigos externos – nada unifica tanto em política que um inimigo comum –, por um discurso nacionalista, por um revivalismo histórico e pela ideia de que quem não concorda com o líder não ama o seu país. E quem não ama o chão que pisa, não merece o estatuto de cidadão, pois não é digno do sofrimento das gerações passadas.

Mais ainda, os populismos baseiam-se numa teocracia política em que o líder messiânico é a encarnação do povo, dos seus anseios e problemas. Ele sabe aquilo de que as pessoas necessitam, as suas preocupações quotidianas e não está, como os outros, a falar para “elites”. Ele sofreu na pele – quase sempre apenas metaforicamente – as agruras da vida, levantou-se cedo, carregou os filhos no frio do Inverno, anda de transportes públicos, conhece a exploração do ser humano, revolta-se com as injustiças percebidas como as advenientes de apoios sociais a classes que identifica como parasitárias e criminosas. O país é de quem a ele pertence, ainda que não se consiga nunca definir adequadamente qual o critério de pertença.

O trumpismo deslocou o populismo para a capital dos EUA, depois de décadas no “quintal” deste país, sobressaindo o peronismo, o chavismo ou o regime de Pinochet. Na Europa, finda a glória do império, votado o Velho Continente a um papel secundário, sem voz no mundo, um vasto continente de serviços, dependente da força industrial de uma China que se transformou em fábrica do mundo, vendidas ou concessionadas as forças produtivas – que poderiam assegurar algum arremedo de soberania básica que nenhum país do mundo alguma vez devia dispensar –, as dificuldades económicas e a crise de uma Europa à procura da sua identidade no futuro global, fizeram florescer Le Pen, Salvini, Orbán, os irmãos Kaczynski, Kurz, Abascal.

O trágico na Europa é verificar que muito do que foi o fascismo se desaprendeu, em particular o modo como começa por se incrustar na vida democrática para, em seguida, terminar com ela. E mais trágico ainda é que a falta de lideranças marcantes nos coloca perante um possível fim do “projecto europeu”. A História do nosso continente é feita de guerras entre os seus actuais Estados, porque aqui residiu durante séculos o maior poderio económico-financeiro. Já não é assim e, curiosamente, esse depauperamento conduz a uma lenta agonia da UE de que o “Brexit” é talvez a primeira de outras saídas, embora o Reino Unido tenha muitas particularidades que lhe permitem ser um entreposto entre a América e a Europa continental, apostando numa nova Revolução Industrial, agora ligada às tecnologias.

A legitimação das democracias ocidentais, seculares e liberais (que não neo ou hiperliberais) vai depender muito da capacidade de os partidos ditos “tradicionais” acomodarem as preocupações do cidadão comum. Se assim não for, veremos em Portugal o que assistimos em França: a morte de um Partido Socialista que já foi de Mitterrand, o estiolar da democracia-cristã na Itália – este anterior –, a força dos nacionalismos regionalistas em Espanha, onde o “Vox” se assume como lídimo representante de uma evocação do franquismo de um reino grande e poderoso.

O funcionalismo sistémico de Luhmann ensina-nos que os sistemas funcionam enquanto são capazes de responder aos “inputs”; Kuhn fala na mudança de paradigma em termos que não são muito diversos. O aproveitamento de acontecimentos reveladores de realidades estruturais gera contramovimentos e afirmações cientificamente erradas como “Portugal não é racista”, enquanto lemos no PÚBLICO estudos em sentido contrário. Há racismo em todos os sectores da vida portuguesa como em todos os demais Estados. Fazer do contrário um “slogan” para dar prova de vida vale o que vale. 

“O populismo está genética e historicamente associado ao fascismo”, conclui Finchelstein. E concluímos todos que um Estado com uma classe média destruída ou depauperada, sem emprego, sem pão para pôr na mesa, ainda que amante do jogo democrático, com facilidade cede a tentações de um líder forte que afirma que o “podem matar mas que não se calará”. O exagero aparvalhado da afirmação é um “soundbite” velhinho de séculos, mas representa votos quando os eleitores também sentem que estão a morrer aos poucos. À atenção da direita democrática e da esquerda moderada.

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