rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 29 jun 07:16

​​Um primeiro-ministro invulgar

​​Um primeiro-ministro invulgar

Giuseppe Conte manteve-se como primeiro-ministro independente no atual governo italiano. Há dois anos era um desconhecido, mas hoje está acima de qualquer político nas sondagens. O que se deve à forma séria como tem liderado o combate à pandemia.

Em Itália, em 2018, formou-se um governo de coligação entre o movimento 5 Estrelas e a Liga – antes chamada Liga do Norte, porque reclamava a divisão da Itália entre o Norte rico (que passaria a chamar-se Padânia) e o Sul, menos desenvolvido, que a Liga desprezava e do qual se queria ver livre. Era um estranho projeto para um partido de extrema-direita, que se proclamava nacionalista.

Nas eleições, que levaram a esse governo de coligação, o partido populista 5 Estrelas obtivera muito mais votos do que a Liga. Mas as sondagens que se seguiram revelaram uma crescente inversão na popularidade dos dois partidos governamentais. Para isso contribuiu o líder da Liga, Salvini, um extremista que se multiplicou nas proibições de acolhimento a refugiados e imigrantes em Itália.

Salvini aspirava, mesmo, a liderar um conjunto de partidos europeus de extrema-direita, apostados em destruir a UE, com o apoio do americano Steve Bannon, que dirigira a campanha eleitoral de Trump. Só que as últimas eleições para o Parlamento Europeu não deram aos eurocéticos os votos que eles ambicionavam.

Embora Salvini fosse o “homem forte” do governo italiano, não era primeiro-ministro. Era vice primeiro-ministro e ministro do Interior. Para chefe do governo os dois partidos dessa coligação foram buscar alguém fora da política, um desconhecido professor de Direito, Giuseppe Conte.

Mas em setembro do ano passado desfez-se a coligação. O 5 Estrelas continuou no poder, agora aliado ao partido democrático, de centro-esquerda. Mas G. Conte manteve-se como primeiro-ministro, para o que terão contribuído as severas críticas que ele publicamente fizera a Salvini e às suas políticas de extrema-direita.

Hoje G. Conte já é bem conhecido em Itália. A sua taxa de aprovação é de 61%, acima de qualquer líder partidário. Porquê? Dizem os observadores que tal se deve à maneira calma, séria e responsável como Conte liderou e lidera o combate ao coronavírus em Itália, que tem sido dramático.

Com frequentes aparições na televisão, o presidente logrou tornar-se popular, sem entrar em populismos. Isto, apesar de os estragos da pandemia em Itália serem dos mais elevados da Europa e as medidas de combate ao vírus serem muito severas. E de terem sido apontados vários erros nesse combate.

Além da pandemia, a Itália enfrenta uma situação financeira dific��lima, com uma dívida pública que já antes da pandemia ultrapassava os 130% do PIB. Essa situação punha, e põe, em perigo o próprio futuro do euro.

Aí, paradoxalmente, as medidas excecionais de recuperação económica que a UE adotou (faltam as mais importantes, é certo) ajudam a Itália a gastar mais dinheiro do Estado sem recear sanções.

A subida da popularidade de G. Conte tem como paralelo a descida nas sondagens do movimento 5 Estrelas, sem líder há meses e acossado por escândalos.

Quanto à Liga de Salvini, agora na oposição, ainda é o partido mais popular de Itália, mas em clara descida – perdeu 12 pontos percentuais, situando-se atualmente em cerca de 25%. Parte do apoio à Liga parece transferir-se para o partido declaradamente fascista, os Irmãos de Itália, que já conta 15% de aprovação.

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