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Cartas felizes – histórias de pais, mães e filhos que o confinamento tornou mais cúmplices

Cartas felizes – histórias de pais, mães e filhos que o confinamento tornou mais cúmplices

A pandemia trouxe mais conivência entre pais e filhos. Pais e mães relatam momentos positivos que vivem com os seus filhos durante o confinamento. Sentem que têm agora mais disponibilidade para os filhos e influência no seu desenvolvimento.

A propósito da pandemia de Covid-19, temos recolhido histórias que atestam como é possível encontrar uma forma positiva de lidar com as suas restrições e encarar de forma adequada este período. A Catarina G., com filhos de 12, 15 e 16 anos, a Catarina S., com um filho de dois anos, o Pedro, com três filhas de nove, quatro e um ano, o Lourenço, com um filho de um ano, e a Bárbara, com um filho de dez anos, foram os nossos interlocutores. Aprendemos com os seus testemunhos formas de criar um ambiente de resistência aos impactos negativos deste inusitado momento.

A pandemia trouxe mais conivência entre pais e filhos. Os pais e as mães relatam momentos positivos que vivem com os seus filhos durante o confinamento. Sentem que têm mais disponibilidade para os filhos e influência no seu desenvolvimento: “Muito mais tempo para acompanhar o crescimento do Henrique e fazer parte do seu dia-a-dia. Conseguimos estar com ele o dia todo e isso dá para ver como e onde ele vai aprendendo coisas novas ao longo do dia. Se antes chegávamos a casa e apenas reparávamos que ele já batia palmas, ou já dançava, etc., agora sabemos que viu na televisão, ou num de nós, um determinado comportamento que reproduz, e assim sentimo-nos mais parte do crescimento dele”, diz o Lourenço, acrescentando: “Uma vez que o tempo livre é agora muito maior (…) existe a tendência para que esse tempo seja ocupado em atividades em família orientadas para a participação da criança juntamente com os pais, o que, num ambiente normal, por vezes, só acontece ao fim-de-semana”. O Pedro reforça: “Temos a noção que isto é uma oportunidade única para passarmos mais tempo com as nossas filhas e, de certa maneira, ficarmos a conhecê-las melhor”.

PÚBLICO - Foto MoMo Productions/Getty Images

Os pais encontram também a oportunidade do fortalecimento das relações com os filhos. A Catarina G. refere: “A pandemia que estamos a viver foi uma benesse para nós os quatro (mãe e três filhos) ”. Para ela, são tempos de melhoria das relações e reforço da cumplicidade familiar: “A pandemia revelou-se uma oportunidade totalmente inesperada e inimaginável para nós os quatro, com consequências extremamente positivas na nossa relação e naquilo que sinto ser a necessidade de serem e de se deixarem ser amados pela mãe, de forma tranquila, serena e constante”. A Catarina S. disse: “(...) têm sido meses fantásticos, em que temos fortalecido e alimentado, diariamente, e a todo o momento, a nossa relação com o Francisco”. A experiência da Bárbara: “Maior proximidade e convivência, entre pais e filho. Maior disponibilidade para abordar em conjunto assuntos da sociedade e da vida”.

Os pais também referem como esta etapa melhorou a relação entre irmãos: “Por outro lado, o facto de elas passarem tanto tempo juntas, aquarteladas na nossa casa, significa que têm desenvolvido laços mais fortes entre si. As nossas filhas de quatro e de nove anos têm muitos conflitos, mas também percebem que têm que brincar uma com a outra porque não têm outra hipótese. O que leva a cenas enternecedoras como, por exemplo, nos últimos dias elas terem decidido dormir na mesma cama; a mais velha lê um livro à mais nova até ela adormecer” (Pedro).

Falam ainda da necessidade de reorganizar as rotinas familiares. Numa família, é importante que se fomente a colaboração entre pais e filhos na gestão das tarefas e rotinas quotidianas, de forma a desenvolver a responsabilidade pessoal: “Foi necessário estabelecermos uma rotina, desde o momento zero, para garantir um equilíbrio e distribuição de tarefas pelo casal, e criarmos um espaço seguro e confortável para o Francisco” (Catarina), ou, como referiu o Lourenço, “dividir as tarefas em família, entre arrumar a casa, cuidar do Henrique e pelo meio cumprir com a expectativa de colegas”. Ou ainda a Catarina G.: “Almoçamos juntos todos os dias, com partilha de responsabilidades na arrumação da cozinha/casa“. Bárbara menciona o “acréscimo de sentimento de pertença e entreajuda ‘um por todos, todos por um’ (…) partilha na execução das tarefas familiares, entre todos”.

Catarina S. nota ainda o tempo de cada um: “Tivemos também o cuidado de contemplar um tempo e espaço para cada um de nós, de forma a respeitarmos a liberdade e privacidade de cada um no casal, mesmo em tempos de confinamento físico e social”. Uma regra na vida dos pais deveria ser encontrar o tempo para estarem entre si, respeitando a individualidade de cada um. O tempo para namorar, para falar, para estar à vontade. Nestes momentos, os pais tendem a minimizar a importância do seu relacionamento em favor da felicidade dos filhos.

Os pais falam do desenvolvimento das suas competências pessoais na relação com os filhos: “Enquanto pais e educadores, temos colocado à prova a nossa criatividade! (…) Temos inventado/diversificado as atividades que fazemos com o nosso filho, experimentando diferentes suportes físicos e digitais” (Catarina S.). Uma criatividade que baseiam no conhecimento dos interesses e necessidades dos filhos: “Temos explorado com maior profundidade e intencionalidade educativa os verdadeiros gostos e interesses do Francisco. Cantar, dançar, tocar piano e contar histórias (…), assim como fazer pinturas, bolinhos, torres de Lego e verdadeiras ‘instalações artísticas’ com tudo o que se possa imaginar“ (Catarina S.), que os leva a encontrar soluções de desenvolvimento dos filhos, que o envolvam ativamente. “Manter a criança ocupada em casa, e resistir à tendência da TV, dos iPad” (Lourenço), ou como acrescenta a Catarina G.: “Voltei a criar um espaço de pintura na sala; a mais nova utiliza esses materiais para, também ela, pintar, (...) Óptimo: sempre acreditei que uma boa parte de ser mãe/pai é apenas criar a oportunidade”.

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