www.publico.ptpublico@publico.pt - 28 jun 13:57

“O 3 é nosso”

“O 3 é nosso”

É incerto o futuro da educação. A receita para os próximos tempos parece girar em torno de uma proposta de ensino misto, conjugando aprendizagens presenciais e à distância.

Enquanto amiga crítica de alguns agrupamentos de escolas em Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP) recordo-me de ouvir falar de uma escola que tinha como lema “o 3 é nosso”. Foi algo que me ficou no ouvido. Independentemente das condições de partida de cada criança e do percurso feito até então, esta instituição ía mais longe, assumindo uma responsabilidade muito direta de todos os seus alunos chegarem ao nível 3. Era esse o significado de “o 3 é nosso”, era a cultura desta escola!

É incerto o futuro da educação nos dias que correm. A receita para os próximos tempos parece girar em torno de uma proposta de ensino misto, conjugando aprendizagens presenciais e à distância. Mais incerto ainda será prever as consequências a médio e longo prazo e como se distribuirão elas, tendo em conta a origem socioeconómica dos alunos.

Os últimos dados de que dispomos do Programme for International Students Assessment (PISA), 2018, relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) elaborado de três em três anos, revelam que a origem socioeconómica dos alunos portugueses é um “forte indicador” dos seus resultados em leitura, ciências e matemática. Um segundo dado interessante para esta reflexão é que, no que diz respeito à expetativa de concluir o ensino superior, Portugal é um dos países em que a diferença entre os alunos socioeconomicamente mais e menos favorecidos é mais expressiva (43%), comparativamente com os restantes 78 países da OCDE que participaram no estudo. Quase todos os alunos portugueses de meios mais favorecidos pretendem concluir o ensino superior (93,1%), enquanto só metade dos alunos de meios menos favorecidos manifesta a mesma vontade.

Estes são resultados pré-pandémicos. O que nos esperará o mesmo estudo em 2021, sabendo que a pandemia poderá ter intensificado a décalage no acesso às aprendizagens, entre alunos com diferentes backgrounds sociais, económicos e culturais? E essas diferenças poderão surgir “apenas” nas aprendizagens académicas ou também nas socioemocionais? Qual será o impacto futuro nas suas vidas pessoais e profissionais, independentemente do quão longe progredirão nos estudos, mesmo sabendo que o nível de escolaridade tem um peso significativo na determinação de uma atividade profissional?

O secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa, referia há tempos que a principal função da escola é ser elevador social. Se o “3 for nosso” e se se for assegurando que as aprendizagens essenciais de todos os alunos são feitas, talvez se possa sonhar com isso. O que está em causa é muito mais do que aprender a lei de Lavoisier, o produto interno bruto ou uma hipérbole. Porque o comportamento socioemocional tem um papel tão ou mais importante nas nossas vidas. Tanto na esfera pessoal, como no plano profissional. É-se contratado muitas vezes pelo currículo, mas despedido pela atitude. Assim sendo, que legado queremos deixar aos nossos jovens ao atravessarmos esta espécie de distopia que parece “iluminar” os nossos dias? Que personagens queremos ser nesta narrativa e que história queremos contar?

Ainda a este propósito é bom recordar que em Nova Iorque, nos anos 60 do século passado, uma greve dos profissionais que recolhem o lixo conduziu a um aumento de criminalidade, dos custos com a saúde e disseminação de doenças de tal ordem que, em apenas uma semana, foi decretado o estado de emergência. Isso mesmo: estado de emergência. Algo que muitos de nós só conhecemos recentemente e pela primeira vez na nossa história de vida.

A escola vive das relações humanas. Talvez daí não funcionar muito bem à distância. E tem um papel ainda mais central nas vidas dos alunos provenientes de meios desfavorecidos e/ou famílias desestruturadas, independentemente do quão longe conseguirão progredir nos estudos ou que profissão/profissões virão a desempenhar. Como tal, se alguma janela não se quer deixar abrir ou algum degrau de escada se faz longe, talvez seja bom lembrar o lema: “O 3 é nosso”.

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico

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