www.jornaldenegocios.ptAntónio Moita - 28 jun 19:20

Estão vidas por detrás do pano

Estão vidas por detrás do pano

Estamos num tempo de crise em resultado de uma pandemia que virou o mundo do avesso. Em consequência, estamos à porta de uma crise económica que irá virar do avesso a vida de muitas famílias. - Opinião , Jornal de Negócios.

O espaço noticioso foi ocupado na passada semana com a trágica morte de um homem que ia a meio de uma vida que todos consideravam feliz e de sucesso. Era conhecido como ator sendo por isso parte do imaginário de quem seguia o seu trabalho, mas era um ser humano como todos nós. Hoje, decorridos apenas poucos dias, já poucos são aqueles que, para além dos seus familiares e amigos mais chegados, se lembram do que ocorreu e refletem sobre o problema. A vida de cada um de nós corre apressada levando-nos para onde o acaso quer.

Normalmente, em muitos destes casos atribuímos a culpa destas mortes inesperadas a doenças mentais como a depressão. Não sou especialista na matéria nem tão-pouco conheço em detalhe cada um dos casos para saber se assim é. Mas sei que são cada vez em maior número os seres humanos que decidem por fim à vida. Segundo a OMS, são mais de 800 mil as pessoas que cometem suicídio a cada ano e, entre os mais jovens (15 a 29 anos), esta é a segunda maior causa de morte. Em Portugal, os cerca de 1.400 casos verificados anualmente (dados de 2016) revelam bem a magnitude do problema. São quase quatro pessoas por dia a pôr termo à vida voluntariamente.

Independentemente das questões científicas, é de elementar bom senso concluir que estas mortes estão ligadas a situações de desespero, de frustração de expectativas, de falta de horizontes, de incapacidade de superar dificuldades ou como tentativa de fuga a circunstâncias de vida que o próprio se recusa a enfrentar. É por isso razoável pensar que, em muitos destes casos, talvez fosse possível evitar a concretização destes desfechos trágicos e irreversíveis caso alguém tivesse conseguido atenuar as causas de tanto sofrimento.

O rendimento, ou a falta dele, é certamente uma das maiores causas de sofrimento e de desespero no seio das famílias e conduz a situações limite. Numa sociedade virada para o crescimento económico em que o sucesso individual está muito ligado à capacidade de acumular riqueza, as situações de desespero relacionadas com o desemprego, a precariedade laboral ou as baixas remunerações são normalmente vistas como danos colaterais que o Estado, sempre ele, poderá eventualmente ajudar a corrigir. Estamos num tempo de crise em resultado de uma pandemia que virou o mundo do avesso. Em consequência, estamos à porta de uma crise económica que irá virar do avesso a vida de muitas famílias.

Hoje tudo se mede. Até a felicidade. Há inclusivamente um Relatório Mundial da Felicidade que em 2017 colocava Portugal num pouco honroso 89.º lugar entre 155 países. As variáveis analisadas são o PIB per capita, a assistência social, a liberdade de escolha, a expectativa de vida saudável, a generosidade, a confiança ou as perceções de corrupção. Não pondo em causa a relevância desta análise, sugeria que nos preparássemos para medir de forma muito concreta a taxa de infelicidade das famílias portuguesas. Em que as variáveis económicas contassem, mas onde fôssemos muito mais além. Onde conseguíssemos destapar a realidade que está por detrás de cada porta ou de cada pano que usamos para esconder as nossas fragilidades. Para que uma verdadeira rede de solidariedade permita tornar realidade a expressão já tão gasta e tão pouco verdadeira de que “ninguém ficará para trás”. Porque o sucesso de uns quantos não pode fazer esquecer as dificuldades de tantos outros. Porque a felicidade de cada um de nós não pode ser plena enquanto a infelicidade estiver, e nós sem o saber, ali mesmo ao nosso lado.

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