expresso.ptexpresso.pt - 23 mai 11:52

A lei dos mortos. Uma obra-prima no centenário de Ruben A.

A lei dos mortos. Uma obra-prima no centenário de Ruben A.

É uma féerie histórico-linguística, uma paródia regionalista e portuguesinha, sobre a fronteira entre estar vivo e estar morto. E é uma das obras-primas de Ruben A., que faria cem anos

Os egrégios avós impõem a lei dos mortos na Torre da Barbela. Erguida na margem esquerda do rio Lima, junto à base de uma montanha, a antiga torre de menagem impressiona quem a visita ou a avista. Triangular, altíssima, a maior da Península, é glória do Alto Minho e monumento nacional. Aos turistas, contudo, o caseiro explica pouco ou nada. É que não é fácil dizer que na Torre dos Barbelas convergem quotidianamente, ao lusco-fusco, os falecidos fidalgos da família, que se levantam dos túmulos e conversam até de madrugada como se estivessem vivos. Comparecem, entre outros, um cavaleiro dos tempos afonsinos, um poeta trovadoresco, um santo cativo no estrangeiro, uma princesa oitocentista, um moderno visconde burocrata, homens que estiveram em Alcácer-Quibir ou nos domínios do Prestes João, que viveram as histórias trágico-marítimas e os fumos da Índia, mais outra gente que os conheceu, como um bobo, um abade, uma bruxa, personagens, eles e elas, de um verdadeiro “romance colectivo”.

Extraordinária demonstração das possibilidades da “ficção historiográfica”, “A Torre da Barbela��� (1964) é uma das duas obras-primas de Ruben A., com “O Mundo à Minha Procura” (1964-1968). Do alto desta Torre vê-se toda a História pátria: os factos e as mitologias, os mementos e os enigmas. Quando ouvimos a espantosa cacofonia dos primos Barbela em colóquio, misturando arcaísmos e modernismos, onomatopeias e corruptelas, a História presentifica-se sem que se torne imediatamente acessível, porque existe apenas em versões duvidosas, façanhas exageradas, verdades consuetudinárias e indocumentadas. É por isso que o romancista escreve sobre miragens e nevoeiros, já não a famosa “neblina da guerra” mas uma neblina da memória. Os Barbelas, velhos fidalgos verosímeis, personagens de corpo inteiro, são também arquétipos portugueses. Católicos convencionais, românticos tacanhos, inconscientes de si, tendencialmente incultos, desconfiados e egoístas, repetem os mesmos erros ao longo dos séculos. Falsamente redivivos, comportando-se como se estivessem numas férias no campo, os fidalgos entretêm-se agora com aquilo que os entretinha quando estavam vivos, genealogias, coscuvilhices, amantes, ou comezainas, quermesses, passeios ao pé da porta. Todos, ou quase todos, acreditam num “destino embebido de fatalismo”, talvez seja esse o seu maior defeito. E todos conhecem, por experiência própria, as fraquezas humanas. É a sua maior virtude.

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