www.dinheirovivo.ptdinheirovivo.pt - 23 mai 08:15

S&P. Dinheiro da troika e BCE protegem Portugal de nova crise na dívida

S&P. Dinheiro da troika e BCE protegem Portugal de nova crise na dívida

Dívida. "Flexibilidade monetária e resiliência da economia são mais importantes na capacidade de pagar que resultados orçamentais de um único ano", diz S&P

O facto de 40% da dívida pública total de Portugal estar na posse de entidades oficiais (neste caso, União Europeia e haver um volume enorme de obrigações depositado nos bancos centrais) é uma proteção muito importante contra uma nova crise nas dívidas soberanas, afirma a Standard & Poor’s (S&P).

Num estudo sobre alguns Estados da zona euro, a S&P observa que, apesar dos perigos que rondam países como Grécia, Irlanda ou Portugal, a verdade é que “uma percentagem significativa da dívida pública é oficial e não comercial”, sendo que a dívida oficial “normalmente beneficia de uma estrutura de reembolsos de longo prazo e custos nominais muito baixos”.

Segundo o IGCP, a agência que gere a dívida portuguesa, Portugal ainda deve 49,6 mil milhões de euros aos dois fundos de resgate europeus que foram ativados na última crise (quando Portugal entrou em bancarrota em 2010/2011).

Os prazos médios de reembolsos a estes dois credores oficiais (um é gerido pela Comissão Europeia, o outro pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade ou ESM) são 11,2 anos e 13,7 anos, respetivamente.

No entender de Frank Gill, o analista da S&P que segue Portugal, tratam-se maturidades bastante longas, que dão ao País tempo e margem de manobra para gerir alguma situação de maior pressão que atinja os mercados da dívida.

E diz mais: “a flexibilidade monetária e a resiliência da economia até desempenham um papel mais importante na capacidade de um país pagar a dívida do que os resultados orçamentais de um único ano”. 2020 deverá ser altamente deficitário e a dívida tenderá a explodir.

Além disso, insiste a S&P, há países que têm mesmo muita dívida à guarda dos referido credores oficiais. No caso de Portugal, o analista da S&P “cerca de 21% da dívida pública portuguesa é à União Europeia (UE) e cerca de 17% é detida pelo Banco Central Europeu (neste caso, pelo Banco de Portugal)”.

Na verdade, no caso dos bancos centrais, até é mais. Como noticiou recente o Dinheiro Vivo, o banco ainda liderado por Carlos Costa tinha mais de 46 mil milhões de euros em dívida portuguesa no final de 2019 e BCE quase 4 mil milhões. Assim sendo, os bancos centrais detêm cerca de 20% da dívida pública.

Portanto, os credores da UE e os bancos centrais guardam 40% de toda a dívida portuguesa, o que para a agência de rating é algo que “beneficia” e protege mais o país contra eventuais “incumprimentos” (defaults).

A S&P observa que “os benefícios para o perfil da dívida em termos de maturidades e custos que advêm desses empréstimos bilaterais superam o facto de esses credores terem um status preferencial”. Para este analista, as maturidades muito longas e as taxas de juro baixas de boa parte do endividamento português coloca uma pressão muito menor no risco de default ao credores oficiais (bancos, fundos de pensões, gestores da ativos), que no caso português detém 60% de toda a dívida pública.

Segundo o IGCP, no ano passado, o stock de endividamento total da República estava com uma taxa de juro média de 2,5%. A dívida nova emitida em 2019 registou uma taxa de juro média que foi metade disso (1,1%). Portanto, o peso do serviço da dívida (os juros, que vão ao défice) deve cair até 2021, apesar do endividamento crescente.

“Apesar do aumento da dívida”, a S&P lembra que, há um mês, “reafirmou o rating” de Portugal num nível de investimento. Em todo o caso, cortou a perspetiva (outlook) da qualidade da dívida portuguesa: era “positiva” e passou a “estável”. Foi um aviso, mas até agora não teve repercussões negativas na qualidade do crédito do País.

1
1