expresso.ptGonçalo M. Tavares - 23 mai 17:29

Diário da Peste. Estatísticas e uma árvore, confronto evidente

Diário da Peste. Estatísticas e uma árvore, confronto evidente

Opinião de Gonçalo M. Tavares

Diário da Peste,
22 de Maio

Estatísticas e uma árvore, confronto evidente.
À sombra dela, os números parecem invenção das notícias do mundo paralelo.
Quinta-feira dia de espiga em Portugal, lembram-me hoje.
Tarde demais.
A tradição diz: passeio matinal para colher espigas de vários cereais e flores para formar um ramo.
Da aldeia dizem-me que a manhã sim, existiu, mas o passeio matinal não.
Máscaras na cara e penso na artista Orlan.
Operações plásticas consecutivas alterando o rosto.
A referência eram as pinturas clássicas.
Pediu um queixo igual à da Vénus de Botticelli.
E uma testa idêntica à da Mona Lisa.
Operações plásticas rodeadas de quadros.
O seu rosto, um museu portátil da pintura clássica e não só.
Mas todos os rostos são museus biográficos portáteis.
Sem Vénus nem Mona Lisa mas com pais, acontecimentos e uma cicatriz.
Basta observares um rosto em silêncio durante minutos e tens uma história.
Quarenta anos do jogo Pac-Man.
Alguém está com fome num labirinto. E só se comer o suficiente poderá sair do labirinto.
Com fome não há saída.
Uma metáfora, Pac-Man.
Mitologia densa vinda da eletrónica simples.
Máscara sim, máscara não.
Em alguns pontos dos Estados Unidos, em algumas lojas: proibido entrar de máscara.
Primeira-ministra da Nova Zelândia sugeriu ontem semana de 4 dias de trabalho e EUA vão colocar bandeiras a meia haste durante três dias.
Tudo está a meio.
Março, Abril e Maio parecem ter apenas dias do meio.
Nada está a começar, nada a terminar.
Qualquer que seja a idade. Todos a meio do caminho da sua vida em Maio de 2020.
"Muitos alunos estão a ser deixados para trás", avisou Andreas Schleicher, Diretor de Educação de uma instituição europeia.
Um aluno que é deixado para trás como alguém que fica para trás numa camioneta e tem de fazer o resto do caminho a pé.
Esperem por mim, grita – mas a camioneta avança.
Lembro um filme russo. Alguém sai de uma camioneta no meio do gelo para defecar. Vi na cinemateca.
A camioneta começa a andar e ele sente vergonha de avançar com as calças em baixo.
Sente vergonha e hesita uns segundos.
E a camioneta avança e ele fica ali no frio sem humanos à volta.
Não está envergonhado, mas está gelado.
E mais gelado ficará até ao último osso que resista.
Não vai resistir muito tempo.
Que filme é esse? Não me lembro.
Não tenha vergonha, madame. Não tenha vergonha, monsieur.
Mercedes Sosa canta Gracias a la Vida música escrita por Violeta Parra.
Violeta Parra, irmã de Nicanor Parra, suicidou-se em 1967. Um revólver. Disparou contra o peito.
Pouco mais de um ano depois de Gracias a la Vida.
Nicanor Parra tem esse humor bruto: “perguntar a hora ao moribundo/cuspir no oco da mão.”
No campo está claro hoje como ontem. Sair de manhã não dá sorte nos dias em que existe medo dos outros e das coisas.
O dia da espiga ou o "dia da hora": "o dia mais santo do ano".
Um dia em que não se devia trabalhar nem refilar.
Chamado o dia da hora “porque havia uma hora, o meio-dia, em que tudo parava”.
A síntese: "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda ".
Insónias. Por vezes trabalho de pontaria.
O sono está lá ao fundo e a mão que treme e os olhos baços tentam acertar nesse mínimo ponto decisivo.
És o alvo e quem aponta ao mesmo tempo. Queres acertar no sono e falhas.
Insónias ontem e hoje. Olhos baços, mão que treme.
Belas e terríveis são todas as suspensões, e ainda mais a do tempo.
Maio de 2020: "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda".

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