www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 22 mai 07:00

A rainha na sucata

A rainha na sucata

Regina Duarte apanhou-me em ponto de rebuçado. Eu sou daquelas pessoas a quem ela podia ter vendido ouro - Opinião , Sábado.
De entre todas as coisas que têm acontecido ao mundo, há umas que me impressionam mais do que outras. Listo as mais importantes: Regina Duarte, as flores roxas que estão por todo o lado, as notícias de tartarugas marinhas a nascerem aos milhões e um alho-francês que cresce sozinho, neste momento, na minha cozinha. Tratarei da Regina primeiro – é preciso limpar a cabeça para conseguir apreciar a beleza do mundo.
Não sou do tempo de Anjo Marcado, Legião dos Esquecidos ou O Terceiro Pecado – eu ainda me deitava às ordens do Vitinho quando o Tony Ramos e a Rainha da Sucata eram o power couple da Globo e mal tinha começado a dar beijos de língua quando a trilogia de Manoel Carlos (História de Amor, Por Amor e Páginas da Vida) começou. Ou seja, Regina Duarte apanhou-me em ponto de rebuçado. Eu sou daquelas pessoas a quem, a dada altura, ela podia ter vendido ouro.

Com o tempo, deixei de ver novelas e virei-me para as séries. De filmes de terror é que nunca gostei – e isso explica a dificuldade que tenho em assistir a este: a namoradinha do Brasil é na verdade uma megera. Se um dia comprámos que ela trocara o seu recém-nascido pelo da filha para que esta não sofresse por ter perdido o bebé no parto, agora bate uma dúvida, não bate? Porque hoje Regina Duarte canta a ditadura militar e só não dança sobre as campas porque está ocupada a atualizar emails para perceber se foi convidada para o churrasco em casa do Presidente.

Aquela boa moça de lágrima fácil não existe. Por isso, vou escolher olhar para ela como uma coisa passageira – como as flores roxas que este ano estão por todo o lado porque ninguém apara jardins e zonas verdes, as tartarugas marinhas que não se cansam de nascer na Tailândia porque a pandemia varreu os turistas da areia e o alho-francês que um post de Instagram me fez mergulhar em água para ver se ele crescia porque com isto do vírus a questão da subsistência está a deixar-me ansiosa. É, vou pensar que vai correr tudo bem. Como é que diz quem sabe? Não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe.
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