expresso.ptexpresso.pt - 22 mai 15:56

Paraisópolis, a favela com 420 presidentes que funciona em autogestão: “O vírus é democrático mas o Brasil não”

Paraisópolis, a favela com 420 presidentes que funciona em autogestão: “O vírus é democrático mas o Brasil não”

Na segunda maior favela de São Paulo, a quinta maior do Brasil, existe fome e uma crise social agravada pela pandemia de covid-19. Deixada ao abandono pelo poder político, a comunidade organizou-se e os moradores olham uns pelos outros. Há ambulâncias privadas, casas de acolhimento, distribuição de marmitas, máscaras e kits de higiene. Afinal, o vírus pega pobre

Paraisópolis, uma comunidade com mais de 100 mil habitantes no coração do Morumbi, em São Paulo (SP), nunca obedeceu ao nome. Não é o paraíso, é “um loteamento para milionários que deu errado”, diz ao Expresso Gilson Rodrigues, o coordenador nacional do G10 das Favelas (um grupo de líderes e empreendedores sociais de 10 das maiores favelas brasileiras) e líder comunitário de Paraisópolis. Estão ao abandono e os problemas sociais gritam em agonia. Faltam estruturas, saneamento básico e até água. A fome não é um fantasma, existe. “A pandemia evidenciou ainda mais as desigualdades no Brasil e em Paraisópolis.”

Pelo menos 80% dos habitantes desta comunidade são nordestinos ou filhos de nordestinos que chegaram a São Paulo com a fantasia de engordar a dignidade, fugindo da seca e da pobreza, e que foram para ali sobretudo para construir o Hospital Albert Einstein e o estádio do Morumbi (casa do São Paulo, três vezes campeão do Mundo), conta Rodrigues. Mas muitos deles descobriram que, tal como canta Criolo, “não existe amor em SP, um labirinto místico, onde os grafites gritam, não dá para descrever numa linda frase, de um postal tão doce, cuidado com doce, São Paulo é um buquê, buquês são flores mortas num lindo arranjo, arranjo lindo feito para você”. A esperança despenhou-se na realidade, a tal com nome de lugar de delícias e que deu errado.

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