expresso.ptMadalena Monjardino Lobão - 22 mai 16:17

Nos bastidores de uma pandemia

Nos bastidores de uma pandemia

Uma jovem médica internista conta como tem vivido, o que tem pensado, que dúvidas tem tido nestes meses duros de luta contra a covid-19. Antes de entrar no artigo, fica já aqui um excerto: “Morreu-nos o doente mais jovem de todos, tem a mesma idade que eu. Isto mexe. A família não se despediu. Os doentes lamentam não nos ver a cara, querem despedir-se, levar mais do que a nossa voz na memória. Há dias bons, como aliás na medicina em geral. Dei recentemente alta a uma senhora de 100 anos a quem o vírus pouco dano causou, que cantarolava que Lisboa cheira a mar e a flores”

Foi em 2015, estava no último ano curso de Medicina, a estagiar num hospital suíço, que vesti o primeiro EPI (Equipamento de Proteção Individual): fazia parte do plano de contigência do ébola. Até hoje nunca contactei com doentes infetados por este vírus, transmitido por fluídos e gotículas (tal como o SARS-CoV2, novo coronavíus). Nunca gostei de decorar percentagens, mas 90% de mortalidade é assustador.

Quando começou a falar-se da covid-19 muitos de nós, médicos, pensámos que seria algo como o pico da gripe, já que a mortalidade não parecia ser tão assustadora. Ainda não tínhamos percebido o potencial de disseminação que tinha. E com isto não quero menosprezar os efeitos da gripe. Nos meus poucos anos de carreira médica (que cabem numa mão) já vi muita gente morrer de gripe. Passar numa unidade de cuidados intensivos mostra-nos uma faceta muito real e dura desta realidade. As estatísticas servem para nos guiar, mas quando temos um doente ou a sua família à frente, a estatística passa a ser 100%.

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