expresso.ptLourenço Pereira Coutinho - 22 mai 10:32

António Costa e as presidenciais: foi você que pediu um candidato?

António Costa e as presidenciais: foi você que pediu um candidato?

Opinião de Lourenço Pereira Coutinho

E, de repente, as próximas presidenciais ganharam interesse. Há tempos, escrevi neste espaço que as eleições marcadas para janeiro de 2021 corriam o risco de se transformarem num passeio monótono de Marcelo Rebelo de Sousa, isto para desespero de alguns, entre eles André Ventura. Mas, na semana passada, António Costa deixou implícito o seu apoio à recandidatura de Marcelo, abrindo a caixa de pandora, e trocando as voltas às previsões.

Resultado, o atual presidente que, na primeira volta, não pediu nem esperou pelo apoio do PSD, procura agora demarcar-se da desconfortável posição de candidato do governo. Por outro lado, a insinuação de António Costa destapou um vasto campo à esquerda. Muitos voltaram a falar de Ana Gomes, que está em “reflexão, e é a candidata de convergência preferida pela esquerda “europeia”. O eventual apoio do Livre e de parte do PS a Ana Gomes, podem obrigar o BE a apresentar também um candidato. Para se diferenciar da antiga eurodeputada socialista, este teria de enquadrar-se numa linha claramente à sua esquerda, o que, à partida, afasta a hipótese Marisa Matias. Ainda à esquerda, é previsível o aparecimento da habitual candidatura apoiada pela CDU, sem outro objetivo para além de fixar o seu eleitorado.

Mas as palavras de António Costa na Autoeuropa tiveram um impacto ainda mais interessante à direita. Tradicionalmente, a direita costuma unir-se em torno de um candidato presidencial comum mas, desta vez, pode vir a dividir-se por quatro candidatos: o próprio Marcelo Rebelo de Sousa que, não esquecer, é oriundo do centro-direita; um candidato “liberal” - Adolfo Mesquita Nunes, ou alguém de perfil semelhante – que consiga reunir apoios da Iniciativa Liberal, e de sectores do PSD e do CDS; um candidato do populismo “light”, possivelmente Miguel Albuquerque, um político que procura protagonismo e gosta de desafios (em 2012, disputou a liderança do PSD Madeira ao então intocável Alberto João Jardim); e, por fim, o populista André Ventura que, afastado do comentário futebolístico, e perante um cenário de mais concorrentes à direita, terá de reajustar a sua estratégia.

Se a todos estes candidatos juntarmos o aparecimento de independentes e um ou outro curioso, teremos umas eleições presidenciais de 2021 mais animadas que o esperado. Até agora, a recandidatura de um presidente em exercício tem sido sinónimo de passeio eleitoral sem verdadeiro debate, e de eleições sem grande história. Mas não devia ser assim. As eleições em que um dos candidatos concorre a segundo mandato têm também de servir de escrutínio democrático dos cinco anos anteriores e, sobretudo, de debate de ideias, valores, e intenções de futuro.

A História recente demostrou que António Costa tem uma capacidade política invulgar. No caso das próximas presidenciais, só ele saberá os reais motivos sobre o timing do seu apoio à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa. Para a democracia, o cenário que agora se prefigura é mais vantajoso que o inicial, quando se adivinhava o confronto entre um candidato de consenso, e candidaturas menores e de extremos. Mas, para António Costa, pode ser que o tiro lhe tenha saído pela culatra. Pedindo emprestado parte da interrogação de um anúncio de outros tempos a uma marca de vinho do Porto, este é, pois, caso para perguntar-lhe: foi você que pediu um candidato presidencial?

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