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Acautelar a excepção

Acautelar a excepção

Foi-nos dito, e todos o sabemos, que situações de excepção exigem respostas de excepção. Será, todavia, avisado não nos precipitarmos na conversão das excepções em regras, sob pena de todo o futuro acabar por ser um imenso improviso.

Confesso que me preocupam algumas notícias acerca de supostas tendências de futuro, ditadas por esta vivência de pandemia e de confinamento. E preocupam-me por duas grandes ordens de razões: a primeira, porque estamos a viver a situação no momento, o que faz com que qualquer avaliação seja feita “a quente”, isto é, sem o distanciamento temporal necessário para a aferição, a avaliação e a reflexão. A segunda, porque tudo o que vivemos, desde Março, vivemo-lo a título de excepcionalidade, como consequência de uma circunstância, também ela, excepcional e imprevisível.

Parece-me, portanto, precipitado e imprudente pretender, a partir destas condições anómalas, definir regras, instruções ou trajectórias futuras, nomeadamente, em áreas tão sensíveis como a educação ou o emprego.

No caso da educação (nos mais variados graus de ensino), ao pretender fazer destes tempos uma espécie de “laboratório de teste” para um sistema futuro, com um crescente peso do ensino à distância, está a partir-se de um erro de princípio, que consiste no facto de, ao longo destes meses, não se ter feito, realmente, ensino à distância – de acordo com os fundamentos dessa modalidade – mas antes um improviso de soluções, face à impossibilidade de um ensino presencial. Estamos perante situações distintas, e isso é algo que não deve ser ignorado.

Enquanto modalidade de ensino/aprendizagem, as metodologias e linguagem próprias do ensino à distância são diferentes das do ensino presencial, e pressupõem uma formação, uma preparação e um treino que, nas circunstâncias presentes, os professores e as escolas não puderam realizar, confrontados com o facto de, num prazo de dois ou três dias, abandonarem o espaço físico das salas de aula e o contacto cara-a-cara com os alunos, substituindo-os pelos ecrãs e teclados dos computadores e pelas múltiplas plataformas de reunião online.

E, naturalmente, isto implicou um esforço de aprendizagem e de capacidade de solucionar múltiplos problemas, ao momento e sem rede. Acresce que, para muitos destes professores (por uma questão de rigor não direi para a maioria, embora seja essa a minha convicção), estes novos espaços virtuais – com tudo o que implicam em matéria de linguagem, tempos e processos – eram território desconhecido.

Diante deste cenário, avançou-se, em esforço e porque era necessário avançar, num registo de tentativa/erro que, embora constitua uma forma de aprendizagem, dificilmente o deverá ser se tais experimentações decorrerem num ambiente real, em que se jogam presentes e futuros individuais e sociais.

Assim, e em boa verdade, não se fez ensino à distância, arremedaram-se formas não presenciais de ensinar e aprender.

Se é inegável que resultaram, destas contingências, novos conhecimentos e novas práticas (quer para docentes, quer para discentes), já me parece mais controverso que se pretenda converter esta experiência na “normalidade do futuro” (sendo que, ainda por cima, este parece ser mesmo um futuro que começa hoje).

Poderá ser útil e interessante ponderar um crescente recurso a modalidades de ensino à distância, mas não me parece sério que o façamos a partir da circunstância actual, nem sobre os (escassos) conhecimentos actuais sobre esta modalidade.

Algo semelhante se passa com o trabalho, assistindo-se a uma generalizada assimilação daquilo que tem vindo a ser feito por um grande número de pessoas, desde há quase três meses, ao conceito de teletrabalho.

Todavia, tal como no ensino à distância, também no teletrabalho há um conjunto de pressupostos que não se verificaram nestas condições de excepcionalidade, pelo que me parece que, mais do que em teletrabalho, nós estamos, isso sim, a trabalhar a partir de casa, como resposta à impossibilidade de o fazer presencialmente.

Porque este alegado teletrabalho, que ocupa os quotidianos de muitos de nós, foi uma solução forçada (para trabalhadores e empregadores), precipitada pelos acontecimentos e, por isso, impreparada e improvisada. Estamos, também aqui, em modo de “navegação à vista”.

Considerando esta realidade, não parecem estar reunidas as condições adequadas para avaliar, de forma objectiva e justa, os benefícios ou malefícios do teletrabalho e, muito menos, para a sua consagração ou desconsagração enquanto modalidade de exercício do trabalho, nesse tal futuro que se inicia agora.

E não o estão, em primeiro lugar, porque em resultado da imprevisibilidade da situação, os trabalhadores não foram formados e treinados para o exercício do teletrabalho, o que pode dificultar o desempenho das suas tarefas e conduzir a uma produtividade mais baixa e a uma maior probabilidade de erro.

Em segundo lugar, porque não houve tempo de preparar os próprios espaços da casa, os horários e as rotinas familiares e pessoais, para contemplarem o tempo de trabalho, sem interferências, algo que é fundamental salvaguardar nas situações de teletrabalho.

Em terceiro lugar, porque não é comum que todos os elementos de um agregado familiar estejam sujeitos a modalidades de trabalho ou ensino à distância – ou, quando tal acontece, terão tido tempo prévio para se organizarem.

Em quarto lugar, porque as modalidades de teletrabalho costumam contemplar estratégias de alternância com trabalho presencial e/ou oportunidade de encontro com colegas, o que não sucedeu na presente conjuntura.

Finalmente, porque este trabalho à distância é, na verdade, uma contingência, decorrente de outras contingências ou, mais apropriadamente, de emergências sociais, que nos obrigaram ao recolhimento, ao confinamento e ao isolamento social e, sobretudo, que nos suscitaram incertezas e medos profundos e generalizados, relativamente ao futuro.

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