expresso.ptGonçalo M. Tavares - 22 mai 13:06

Diário da Peste. Uma nova cor no mundo: nuvem negra transparente

Diário da Peste. Uma nova cor no mundo: nuvem negra transparente

Opinião de Gonçalo M. Tavares

Diário da Peste,
21 de Maio

Em cada latitude-longitude: temperança morna, alívio ou tensão em círculo.
O alvoroço do vírus vai em nuvem negra que ninguém vê.
Uma nova cor no mundo: nuvem negra transparente.
Desloca-se. Mais para norte, sul, este, oeste.
Em Lisboa, um certo medo perde espaço. Mas no Brasil, de novo mais de mil mortos.
Recebo mensagens de pessoas amigas aterradas.
Palavra que afunda já no solo o peso inteiro.
Aterradas com um terror que vem da terra já não parecer sólida.
Há insultos e insultos - e no meio há notícias de desistências e infecções.
Uma amiga do Rio conta a história. Um filho não foi à morgue do hospital reconhecer o pai, medo de contágio.
Alguém tira uma fotografia ao rosto e ele confirma com o ecrã na mão.
O rosto é o rosto é o rosto do meu pai.
Diário de ontem.
Continuo no livro de Didi-Huberman.
“Eu daria toda a Montedison por um vaga-lume”, diz Pasolini.
Montedison, uma das grandes empresas de Itália.
Podemos continuar e dizer.
Troco uma fábrica por um vaga-lume.
Uma máquina por duas pedras capazes de fazer faísca.
Ontem ainda: Wuhan proibiu consumo de animais selvagens durante cinco anos.
Durante cinco anos, os animais selvagens podem estar calmos.
Talvez ao fim desses 5 anos os animais selvagens fiquem mansos e possam já ser legalmente comidos.
O manso é aquilo que é comido sem dizer ai nem ui.
A fome humana, essa, nunca amansa.
Ao contrário dos cavalos selvagens, de alguns lobos e de vários chacais.
O cavalo domestica-se à força do punho forte e à corda. Com a repetição e por vezes ao pontapé.
Mas não podes amansar o teu estômago, que é coisa selvagem.
Não há corda, punho, pontapé ou jejum repetido que domestique.
Levanta-se o estômago a cada novo dia de manhã e diz: Quero.
Uma notícia. Os trabalhadores sexuais trans no Brasil estão com fome e cada vez mais em perigo.
Sem trabalho, sem clientes e sem apoio do Estado, claro.
Estão desesperados. Fogem de nós ainda mais do que fugiam, dizem. Ninguém vem a nossa casa.
Quero, diz o estômago. Segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo.
Os vaga-lumes devem ser protegidos.
E contá-los é uma outra forma de estatística nocturna que deve ser recuperada como são recuperados os mais belos edifícios em ruínas.
Fazer uma estatística às escuras, estatística com os olhos fechados.
“Se eu não tiver sexo, morrerei de fome”, disse um prostituto trans no Brasil.
O dia em Lisboa sem nuvens, nem claras nem escuras.
Jeri, a golden, tem tempo para a aperfeiçoar a melancolia, e aproveita-o.
E Roma está bem, a intempestiva e agitada Roma mantém a ferida mas está firme.
Humanos ok. Limoeiro ok, laranjeira ok e buganvília ok. Muro branco ok também.

-----------

Índice

Diário da Peste. O número de vaga-lumes avistados por noite
Diário da Peste. O leve vírus desloca-se como em tempos o mamute pesado
Diário da Peste. Quanto tempo fica o mal numa superfície?
Diário da Peste. Pintar de branco a acelerada superfície de um dia

1
1