expresso.ptexpresso.pt - 27 mar 00:57

Covid-19. Novos alertas, um aviso e uma nota de esperança no dia em que o vírus passou uma barreira mais do que psicológica

Covid-19. Novos alertas, um aviso e uma nota de esperança no dia em que o vírus passou uma barreira mais do que psicológica

O ponto da situação mundial da pandemia da covid-19

Meio milhão de casos confirmados do coronavírus covid-19: o mundo passou esta quinta-feira uma barreira que não é apenas psicológica, é também deveras inquietante. O número global de mortos ultrapassa os 24 mil. A cada minuto, chegam números, dados e previsões alarmantes. Uma estimativa feita por investigadores do Imperial College de Londres aponta para a possibilidade de 1,8 milhões de vítimas mortais a nível global.

Isto no dia em que os EUA passaram a registar mais casos de infeção do que qualquer outro país. Segundo os dados mais recentes, são já mais de 83 mil, seguindo-se a China (mais de 81 mil) e Itália (mais de 80 mil). Ainda assim, o Presidente norte-americano, Donald Trump, diz que o país “tem de voltar ao trabalho muito rapidamente”. Não será assim tão surpreendente, tendo em conta que 3,3 milhões de americanos pediram subsídio de desemprego em apenas uma semana. O Senado aprovou um gigantesco plano de ajuda económica e já só falta o aval da Câmara dos Representantes.

Itália, que detém o triste recorde do número de mortos, deu mais um passo monstruoso nesse sentido, ao reportar mais de 700 mortes em apenas 24 horas. Uma nota positiva: o número de recuperados ascende a 10.361, superando assim o de vítimas mortais (8.215). A ajuda vai chegando, ainda que se revele insuficiente para travar o avanço da doença. A Rússia e os EUA enviaram pessoal e material médico para o norte de Itália, o Papa Francisco doou 30 ventiladores a hospitais do país, as fábricas que o criador de moda Giorgio Armani detém em Itália vão começar a produzir roupa para “os profissionais de saúde envolvidos na luta”, e médicos do centro e sul do país voluntariam-se para ir para a zona mais crítica.

Em Espanha, outro foco trágico no mapa-mundo do vírus, os mortos são já mais de quatro mil. E de lá continuam a chegar notícias inquietantes: as autoridades devolveram à China testes rápidos pouco fiáveis, mais de mil idosos morreram em lares de Madrid em março (e o mês ainda não acabou) e muitos espanhóis não perdoam as saídas à rua, atirando insultos e ovos a partir das janelas.

França registou mais 365 vítimas mortais (o número total é de 1.696), mas perto de cinco mil doentes recuperaram. Os governantes estão a ser visados por queixas-crimes devido à gestão que têm feito da pandemia. Eis um vislumbre do confinamento na França rural: “Hoje peguei no atestado para ir meter gasolina”. Outro: “Bonjour, messieurs” – o lugarejo cercado onde o vírus aterrou a falar francês.

Um ‘tsunami’ de casos graves

No Reino Unido, com 578 mortos e 135 recuperados, os hospitais públicos enfrentam um ‘tsunami’ de casos graves. Mas já são cerca de 650 mil os voluntários que se inscreveram para ajudar o Serviço Nacional de Saúde, muito além dos 250 mil pedidos pelo primeiro-ministro, Boris Johnson, na terça-feira.

Ainda no continente europeu, a Suécia segue em contracorrente: “O país não pode tomar medidas draconianas que têm um impacto limitado na epidemia”. Alguns especialistas discordam da estratégia do Governo e alertam para “o grande risco de a Suécia ir para quarentena quando o sistema de saúde entrar em crise.”

Noutras latitudes, o Fundo Monetário Internacional já recebeu pedidos de ajuda de 20 países africanos, o Brasil registou mais 20 mortos (são agora 77) e quase meio milhar de novos casos relativamente à véspera, o número de casos de infeção ultrapassou a centena na Venezuela (e há já um morto a registar), a Etiópia concedeu perdão a mais de quatro mil reclusos, o Afeganistão vai libertar até 10 mil prisioneiros para travar a epidemia, a China vai suspender temporariamente a entrada de estrangeiros e a Rússia suspende os voos internacionais a partir desta sexta-feira. E perceba aqui como Taiwan conteve a epidemia à partida.

Crise sanitária, política e financeira

O Kosovo junta uma crise política à crise sanitária. E não é exemplo único. O tribunal eleitoral da Bolívia anunciou que propôs novas datas para as eleições presidenciais, inicialmente agendadas para 3 de maio. Na Índia, a obrigação de ficar em casa está a deixar sem sustento muitos milhões. No Iémen, as partes em conflito apoiam um cessar-fogo. E a ONU retira algumas operações da Líbia, o que só pode significar uma coisa: a situação nos centros de detenção vai piorar.

Os líderes do G20 afirmaram-se “empenhados em fazer tudo o que for preciso” para ultrapassar a pandemia. Após uma reunião por videoconferência, o grupo que junta as 19 maiores economias do mundo e a União Europeia (UE) comprometeu-se a não se poupar a esforços para proteger vidas, salvaguardar empregos e preservar a estabilidade financeira. Apesar dos compromissos anunciados, o G20 não detalhou as medidas que iria adotar, limitando-se a prometer “reagir com prontidão”.

O Banco Mundial prepara um pacote de ajuda no valor de 146 mil milhões de euros, enquanto o Parlamento Europeu (PE) aprovou a mobilização de 37 mil milhões de euros de investimento público. O presidente do PE defendeu que a emissão europeia de dívida é “a escolha certa”: “Não importa qual o nome ou o tipo de instrumento – seja ‘coronabonds’ ou outro semelhante –, mas precisamos de criar um mecanismo para a mutualização da dívida”. E o Conselho Europeu dá duas semanas ao Eurogrupo para apresentar propostas. Ao fim de cerca de seis horas de discussão, os líderes dos 27 Estados-membros da UE adotaram uma declaração conjunta nesse sentido.

Novos alertas e um aviso

Novo dia, novos alertas: a transmissão de mães para filhos na gravidez é rara mas possível, as medidas protecionistas dos governos nacionais podem provocar uma escassez de alimentos e a vacinação de crianças pode estar em risco. Ainda outro, que assume mais a forma de um aviso: a pandemia vai prolongar-se durante 12 a 18 meses “se tivermos sorte”, afirmou Ashish Jha, diretor do Harvard Global Health Institute, durante uma sessão de perguntas e respostas que decorreu esta quinta-feira no Facebook. “Quando tivermos uma vacina que seja eficaz e que esteja largamente distribuída, podemos pôr fim à pandemia”, adiantou o especialista, que acrescentou: “Até lá, vamos ter de nos continuar a confrontar com o vírus”.

Na cultura, a Alemanha disponibiliza 50 mil milhões de euros para o sector – e em Portugal? O ator norte-americano Mark Blum juntou-se à já extensa galeria de famosos vítimas da doença, ao morrer aos 69 anos.

Serviço público: o YouTube retirou 14 vídeos com falsos tratamentos médicos para a doença. E um apelo comovido: o jogador da NBA Karl-Anthony Towns tem a mãe em coma e pede que as pessoas percebam a gravidade da situação.

A fechar, uma nota de esperança: uma mulher de 96 anos tornou-se a pessoa mais velha a curar-se da doença na Coreia do Sul.

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