expresso.ptexpresso.pt - 26 mar 08:59

Uma viagem à zona vermelha do Hospital de São José: “Se eu tiver covid, tenho de ser ventilado, não é enfermeira?”

Uma viagem à zona vermelha do Hospital de São José: “Se eu tiver covid, tenho de ser ventilado, não é enfermeira?”

Ainda não chorou, mas sabe que terá oportunidade para isso porque, reconhece, "a situação vai piorar". Até lá, todos os dias, Andreia Carmona amarra os próprios nervos e mete a emoção dentro do fato de astronauta para ajudar as dezenas de pessoas que chegam ao Hospital de São José, em Lisboa, com sintomas de infeção pelo novo coronavírus. Pessoas que chegam, sobretudo, com muito medo do que pode acontecer

Na Lua não se bebe água por uma palhinha, mas na zona vermelha do Hospital de São José três enfermeiras conseguiram matar a sede vestidas de astronauta, sem tirar a viseira que as protege da ameaça do novo coronavírus. Uma fotografia partilhada nas redes sociais ficou como testemunho da solidariedade e do espírito de equipa que caracteriza os profissionais de saúde, rostos de um combate que une todo Portugal.

Helena estava sedenta e Andreia e outra colega encontraram uma maneira engenhosa de dar-lhe água, sem estragar os fatos caros que vestem para poder atender pessoas com suspeita de estarem infetadas. Um furinho no protocolo, é verdade, bem pequenino, torcemos todos nós. Fechados em casa, não se sabe ao certo o que se passa nestas áreas vedadas aos olhares e visitantes externos, os locais que concentram as atenções de todo o país. Afinal, o que acontece dentro das unidades hospitalares que atendem os doentes com covid-19?

As urgências de São José estão divididas, entre doentes suspeitos de covid e não-covid, e Andreia Carmona, 25 anos, atende os doentes que chegam com suspeita de estarem infetados e já não têm capacidade para se locomoverem de forma autónoma. Estão deitados em macas, muitos são idosos. E, para cumprir todo o protocolo de segurança estabelecido, podem ser atendidos no máximo oito doentes em simultâneo. Estão fragilizados. Têm medo.

Não são só os doentes que estão assustados. Também os profissionais de saúde viram multiplicado o seu nível de ansiedade. Na equipa onde Andreia trabalha ainda ninguém ficou doente, mas a enfermeira reconhece que o risco existe. A única forma de minimizar os receios é cumprir as regras de segurança. E tudo começa pela roupa que têm de vestir de cada vez que se aproximam da área de atendimento aos doentes.

"É desconfortável, mas necessário. É verdade que ficamos com o rosto marcado, como vemos nas fotografias de Itália e de Espanha. Eu tenho um galo na cabeça e não é apenas uma questão estética, dói mesmo", explica Andreia para partilhar as consequências da viseira que tem de usar horas a fio. "Dói mesmo", repete a enfermeira, como se fosse preciso. O leitor acredita, Andreia, temos vontade de dizer, mas não faz parte do nosso protocolo.

De astronautas na Terra

A proteção começa quando os enfermeiros vestem a farda descartável do hospital, composta por uma calças e uma túnica. Depois, já na "área limpa", colocam uma bata comprida - "até aos tornozelos" -, uma touca sobre o cabelo, uma máscara bico de pato, os óculos, sobre os quais se coloca a viseira. Falta ainda o "cobre-botas" e umas luvas compridas, "como se fossem uma segunda pele". No fim de tudo, as luvas normais.

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A cada atendimento, Andreia tem de trocar as segundas luvas e desinfetar-se. "É impossível contar o número de vezes que tiramos e colocamos luvas e nos desinfetamos". Mesmo assim, fica um medo miudinho dentro do peito, um receio de que se esqueceu de qualquer coisa e que o vírus vai aproveitar-se e instalar-se no corpo como um hospedeiro atrevido. "Qualquer erro pode colocar em risco as pessoas que atendemos e os nossos colegas", explica Andreia.

É esse espírito de companheirismo e respeito mútuo que sustenta a equipa. "Uns olham pelos outros, ajudamo-nos. Temos dúvidas, apoiamo-nos. Algumas vezes até discutimos, mas resolvemos tudo internamente", conta.

A enfermeira também já perdeu a conta a quantas pessoas atende em cada turno, mas não lhes esquece o tom emotivo. São na maioria idosos e vêm com o pânico que marca a sociedade atacada pelo novo vírus. "Chegam preocupados, assustados e muitos perguntam logo: 'Se tiver covid vou ter de ser ventilado, não é enfermeira?'"

O pior é que em frente ao medo, os doentes encontram profissionais de saúde a quem só conseguem ver os olhos, por baixo dos fatos de filme de ficção científica. "As pessoas não sabem bem o que se passa e o que lhes vai acontecer", resume Andreia.

E aos profissionais cabe suportar todo aquele peso. Evitar desperdiçar o equipamento de proteção individual, nem que seja para beber um pouco de água ou ir à casa de banho. "Sabemos que este material é caro e escasso e fazemos com que dure o máximo, procuramos aguentar pelo menos quatro horas sem sair", assume. Na terça-feira, um colega sentiu-se mal, teve de sair e saiu. Mas são exceções. Ali, impera a resistência, até porque, "se sair, tem de se trocar tudo".

Quando deixa o hospital, a jovem de Castelo Branco vai para casa ainda carregada com a bagagem do dia de trabalho. Se é difícil tirar toda aquela roupa, ainda mais complicado é despir as emoções. Além do mais, despir para quê, se a casa que a recebe está vazia? A família que tanta falta lhe faz e que costumava visitar a cada quinze dias, está longe - "ainda bem, protegidos de mim". Por outro lado, Andreia não sente a pressão de alguns colegas que, com crianças em casa, não podem abraçar os filhos quando regressam cansados. E que bem que lhes faria. A filhos e pais.

Para iludir o cansaço emocional, Andreia vê televisão, ouve música, tenta distrair-se. Ainda não lhe deu para chorar, sabe que tem tempo - "vai piorar" -, procura desligar o cérebro, como se esse tivesse um botão. Não tem.

Nem o dela, nem o dos dois médicos, dois enfermeiros e dois auxiliares que completam a família de Andreia no São José. A família que se deixou fotografar para o Expresso, à distância, como mandam as regras do novo mundo que se tornou o nosso. Uma fotografia com uma mensagem a quem fica em casa, onde deve ficar, para que os profissionais de saúde possam resistir, menos esgotados, onde precisam de estar para o bem de todos.

"Esta experiência vai fazer de mim uma profissional melhor, mas, principalmente, vai fazer de mim uma pessoa melhor. Mais humana, capaz de aproveitar melhor a vida e a dar importância ao que realmente tem importância". É isso mesmo, Andreia, como ajudar uma colega a matar a sede.

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