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Respostas para tempos de medo

Respostas para tempos de medo

A indecisão inicial de Christine Lagarde, governadora do Banco Central Europeu, quase nos matava de susto. Pelo cinismo de deixar Itália entregue a si própria - Opinião , Sábado.
Mário Centeno, na dupla qualidade de ministro das Finanças e de presidente do Eurogrupo, veio esta semana dizer que a resposta europeia à crise "não vai ter limite e vai ser muito solidária". Espera-se que sim e, sobretudo, que seja rápida. As primeiras reações europeias não foram nem rápidas nem animadoras. Agora, ao menos, que a Europa, tal como Centeno em relação à sua permanência na pasta das Finanças, arrepie caminho. Porque se o tempo é de guerra, como disseram, não há margem para deserções da linha da frente nem para indecisões. Nas guerras verdadeiras, a indecisão só produz uma coisa: a morte própria e a alheia. O general que hesita, habitualmente mata os seus soldados.

A indecisão inicial de Christine Lagarde, governadora do Banco Central Europeu, quase nos matava de susto. Pelo cinismo de deixar Itália entregue a si própria e pela aparente inconsciência sobre a dimensão da tragédia em curso. Basicamente, Lagarde remetia para os governos e para os orçamentos nacionais a resposta a esta crise. Não estava a perceber a magnitude da recessão que aí está. As Bolsas deram-lhe um sinal muito vermelho e o BCE veio, felizmente, corrigir o tiro. Veio dizer que, afinal, percebeu a real dimensão do que está em jogo e, portanto, abrir os cordões à bolsa com um pacote de 750 mil milhões de euros para início de conversa. Vai comprar dívida pública dos países e dívida das empresas, injetar liquidez nas economias e, muito importante para Portugal, assumir que compra mais aos países que o necessitem, sem olhar ao peso das respetivas economias no quadro europeu. Não há limites para o compromisso do BCE com o euro, escreveu depois Lagarde. Nunca como hoje necessitamos de líderes que tenham coragem e falem verdade. E que apresentem verdadeiras respostas para estes tempos de incerteza e medo.

A hora dos bancos
Para lá do BCE, os bancos nacionais estão obrigados a uma solidariedade clara para com as populações. Foram os contribuintes de cada país que pagaram – e ainda pagam - a crise do subprime e que, portanto, salvaram a banca. Escrevo a uma segunda-feira e espero, francamente, que na quinta, quando esta revista sair para os quiosques que resistem, António Costa não tenha necessidade de continuar a mandar recados à banca portuguesa. Espero que esta tenha vindo a terreiro dizer de que matéria concreta se faz a solidariedade dos bancos. Se estão mesmo do lado dos portugueses, como a Caixa Geral de Depósitos já começou por fazer, ou se vão continuar escudados em artificialismos jurídicos para ganhar com esta crise, à custa dos clientes. Seria desastroso e uma indecência!

A nossa pandemia
Para nós, jornalistas, como para muitos portugueses, há já uma dupla pandemia em curso. A sanitária, que impõe todos os cuidados, e a económica, que, por causa da primeira, ameaça ser arrasadora para o setor da comunicação social, em particular para o da imprensa. A vida desta indústria já era muito difícil, mas agora está a tornar-se impossível. A deserção das receitas de publicidade e a dificuldade de chegar aos leitores vai fechar muitos títulos se esta crise se prolongar muito mais tempo. Sobretudo se, como até aqui, a situação da indústria continuar a ser alvo de um abjeto desinteresse político, com a conhecida exceção do Presidente da República. Os sucessivos governos das últimas duas décadas nunca tiveram uma política digna desse nome de defesa da comunicação social ou de incentivo da leitura, tanto pela imprensa como pelo livro. Pior: consentiram, com a omissão e a inação, verdadeiros crimes contra os direitos autorais de jornalistas e empresas, incentivando a vampirização do trabalho alheio feito pelo chamado clipping. Esta prática vergonhosa de copiar diariamente o trabalho de milhares de profissionais da comunicação social beneficiou com as assinaturas do próprio Estado. Foi promovida pelo próprio Estado, que deu às empresas de clipping um mercado roubado aos media. Felizmente, essa é uma prática em vias de ser travada pelos tribunais mas, mais uma vez, continua a merecer do Governo a complacência do silêncio e da inação. Desde que um tribunal decidiu proibir tal prática e obrigar as empresas a pagar indemnizações, que se saiba, o Estado nada fez, como, por exemplo, acabar com as assinaturas de tais empresas. Deve estar cinicamente à espera que se resolva um eventual recurso.

Noutros países, com economias mais robustas e com verdadeiros mercados de leitores, como França ou Espanha, para já não falar nos países anglo-saxónicos, quem fez a transição para o digital e para um modelo de assinaturas, tem um futuro pela frente. Os que estão mais atrasados nesse processo foram apanhados em contrapé e enfrentam agora uma situação terrível. No entanto, nunca como hoje a informação e a sua sobrevivência nas várias plataformas são essenciais a uma democracia, que deve ter no direito do povo de saber tudo o que lhe pode dizer respeito um dos direitos fundamentais, pelo menos ao nível do direito de voto. São irmãos gémeos nos valores que fermentam e cimentam uma democracia.

Nos dias que agora vivemos, o jornalismo, a par da Medicina e da Ciência, é uma arma essencial contra o vírus. É com ele, com as suas armas de rigor, fiabilidade, clareza e objetividade que lutamos contra o rumor, a falsa informação, a manipulação absurda de factos e regras essenciais à sobrevivência de seres humanos que campeiam pelas redes sociais. É nos momentos de crise que o jornalismo responde e, aí, quero deixar aqui bem expressa a minha homenagem a todos os títulos do jornalismo profissional português. Todos eles, sem exceção, têm tido uma ação exemplar na construção da coesão nacional que é necessária para vencer esta crise, mas sem nunca abdicar de um indispensável sentido crítico e analítico.

Aqui na SÁBADO, esta é a primeira edição da revista totalmente escrita, revista e paginada em teletrabalho. Esta crise obrigou a nossa pequena equipa a um esforço gigantesco de conciliação de todas as obrigações impostas pela crise com a necessidade de manter um elevado e rigoroso fluxo informativo no site – totalmente aberto e com audiências-recorde –, ao mesmo tempo que mantinha as exigentes rotinas de fazer uma revista com a qualidade da SÁBADO.

Desde a semana passada que a operação do site é garantida por uma pequena equipa na redação e todos os outros jornalistas que estão em teletrabalho. Nada disso muda o essencial do nosso compromisso consigo, caro leitor, que, como sabe, passa por lhe servir uma informação rigorosa, atual, que explique os factos e os enquadre, que lhe diga o que está a passar-se no mundo e antecipe o que pode encontrar no dia seguinte. Mas também nunca como hoje foi tão importante fazer de cada leitor um comprador, em papel ou digital. Nunca como hoje foi tão importante que pense por si e nos ajude a levar-lhe os factos indispensáveis a esse ato de esplendorosa autonomia intelectual do ser humano. Muito obrigado pela sua atenção, caro leitor. Resista e proteja-se! Todos juntos, vamos vencer!
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