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Três em cada quatro alunos estão em casa. Qual o futuro do ensino?

Três em cada quatro alunos estão em casa. Qual o futuro do ensino?

O coronavírus tirou 1,4 mil milhões de alunos (2 milhões em Portugal) das escolas. O impacto ainda é incalculável, mas as avaliações estão já em risco

A UNESCO admite já que três em cada quatro alunos a nível mundial estão em casa, sem aulas (pelo menos presenciais) já que as escolas estão encerradas após o surto do novo coronavírus SARS-CoV-2 (Covid-19) ter paralisado a forma como vivemos a nível mundial, com efeitos avassaladores na saúde, nas economias e, claro, no ensino.

Os últimos números divulgados pela organismo das Nações Unidas revelam mesmo que cerca de 1,4 mil milhões de alunos em todo o mundo ficaram impedidos de frequentar a sua escola ou universidade até 23 de março de 2020 – e o número deverá mesmo aumentar, com mais escolas a fechar em países como os EUA (desde segunda-feira 55 milhões de alunos norte-americanos ficarem sem aulas). A 3 de março eram apenas 300 milhões de alunos em casa e com as suas escolas encerradas, mas o número cresceu vertiginosamente, tal como a propagação da pandemia do Covid-19.

Em Portugal estima-se que são dois milhões de alunos que estão em casa e sem aulas presenciais desde 16 de março (alguns antes disso) e assim devem ficar até ao final do ano letivo, previsto para o início de junho (o 3º período está previsto começar a 13 de abril).

Os números da UNESCO referem-se aos alunos matriculados nos níveis de ensino pré-primário, primário, secundário e superior, bem como ao nível de mestrados. O registo formal é de 1.379.344.914 estudantes ou, seja, 80% dos alunos a nível mundial (os tais três em cada quatro alunos), que estão a ser mantidos fora das instituições de ensino com o encerramento das escolas em países inteiros. A análise indica ainda que existem 284 milhões de alunos que estão a ser afetados de alguma forma pelos encerramentos localizados em certas zonas – como se verifica nos Estados Unidos, nos estados da Califórnia, Virgínia e, agora, de Nova Iorque.

No total, até ao tal dia 23 de março, segunda-feira, foram 138 os governos que já ordenaram o encerramento de escolas e universidades por todo o país, com quase 60,2 milhões de professores as ficarem, também eles, fora das salas de aula.

Dados da UNESCO

Leia também: Como será a Universidade do futuro em Portugal? “Aprender é para a vida”

Avaliação em Portugal está em causa

Esta terça-feira, o próprio governo português por intermédio do primeiro-ministro António Costa, admitiu que, depois do período estabelecido para reavaliação de 9 de abril, as escolas em Portugal deverão continuar a manter-se fechadas por mais algum tempo, “muito além” das férias da Páscoa. Ao Público, o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, admite que isso não é novidade, mas o que importa e falta saber é: “Como vai decorrer o 3º período? Que será em casa já se percebeu, mas como será feita a avaliação?”.

As universidades são quem tem tentado usar mais ferramentas para aulas em vídeo ou videoconferência, existindo depois portais de educação usados mas cujo propósito inicial nunca foi o de substituir por completo as aulas. Filinto Lima explica que este é território desconhecido e que as escolas não sabem como proceder até porque o ensino à distância não é frequente no sistema português, muito menos incluindo avaliação e falta as tais “orientações claras” do Ministério da Educação.

Daí que, entretanto, estudantes, pais e diretores já se mostraram ser favoráveis ao adiamento dos exames previsto para o final do 3º período – que parece estar agora em risco. Filinto Lima diz ainda que, assim, se vão acentuar as “desigualdades” entre alunos, com vários a não terem meios como computador ou internet em casa e ficando em inferioridade em relação a outros colegas.

Apesar de existirem vários professores a enviar exercícios aos alunos, fica no ar a dúvida sobre se eles têm mesmo de os executar e se esse tipo de trabalhos podem “contar para as notas do 3º período”.

A investigadora na relação trabalho-família e professora de psicologia na Universidade de Lisboa, Maria José Chambel, concorda e admite que as desigualdades ficam mais expostas com esta situação que vivemos, isto além que existiram diferenças óbvias entre níveis de ensino diferentes.

“Os alunos mais velhos não só têm mais recursos, como são mais autónomos na sua vida académica e estão mais habituados à utilização das novas ferramentas e das tecnologias, adaptando-se com mais facilidade e têm mais maturidade”, diz ao Dinheiro Vivo a especialista, que admite maiores dificuldades em ter aulas remotas nos alunos mais novos, “muito mais dependentes de terem um adulto que as acompanhe no estudo”.

Chambel admite que vivemos tempos incertos, não só por não haver certezas de quando a crise pandémica – e respetivo distanciamento social com escolas fechadas – é necessário, mas também por esta necessidade de ensino remoto de forma imediata ter apanhado todos de surpresa. “Pior estão as escolas infantis e o ensino primário e secundário, onde não costumam estar implementadas soluções tecnológicas como portais de apoio escolar ou mesmo sistemas de videoconferência que já existiam em algumas universidades”, lembra. Daí que seja necessário repensar o nível de exigência, mesmo se for preciso avançar com a avaliação.

“Não fica tudo igual, até porque uma criança de sete ou oito anos estava seis horas na escola e, hoje, muitos pais trabalham de casa e não podem ter esse acompanhamento com os filhos”, admite, referindo-se a uma cultura de ensino totalmente presencial, que é a vigente em Portugal, onde os próprios professores se tentam adaptar ao novo paradigma.

“Tem de haver alguém nas escolas (em todas) a recolher informação e a fazer um esforço para saber o que se passa com esses jovens, tentar falar nem que seja com um telefonema lá para casa, para que ninguém se sinta sozinho neste momento”.

Esta pode ser também uma oportunidade, à medida que todos se tentam adaptar à nova realidade, “para que o sistema de ensino apele mais no futuro à autonomia, a que os alunos giram a sua aprendizagem e não fiquem tão dependentes da presença do professor”. Isso e fazer com que todos os professores e alunos tenham computador e internet, algo que temos visto que ainda não acontece. A especialista tem, assim, uma certeza: “nada ficará como era a nível de ensino, porque embora em circunstâncias difíceis autoridades, professores, alunos e pais percebem que as tecnologias permitem outro tipo de soluções”.

“Se voltarmos à escola no início de maio é uma coisa, se for só no verão já é outra e a adaptação terá de ser maior”, já que a paragem começou no final do 2º período e pode apanhar todo o 3º período. Maria José Chambel adianta ainda a dificuldade de pensar nos novos critérios para avaliar os alunos, “até porque existem casos de professores de secundário sem hipótese de dar aulas remotas ou que simplesmente nem conseguem saber se alguns dos alunos estão bem”.

“Para situações inesperadas temos de ter respostas inesperadas”

Numa nota mais positiva, “temos de ser imaginativos nessa possível avaliação, que terá de ser bem diferente da tradicional”, daí que exista “um papel muito importante até a nível mental dos professores”. “É muito importante transmitirmos segurança aos alunos, pais mas também professores, escolas e autoridades de ensino – nas escolas básicas e secundárias só um terço dos alunos mantém contacto com escolas ou professores, pelo que pude perceber”. A investigadora especializada na relação entre família e trabalho, deixa ainda um pedido: “tem de haver alguém nas escolas (em todas) a recolher informação e a fazer um esforço para saber o que se passa com esses jovens, tentar falar nem que seja com um telefonema lá para casa, para que ninguém se sinta sozinho neste momento”.

Já sobre o seu caso em particular, os seus alunos da Faculdade de Psicologia da Universidade de Ciências estão a ter aulas remotas já antes do dia 16 de março, quando o governo decretou o encerramento das escolas no país. “Tenho todos os meus alunos a assistir às minhas aulas e estão calmos e adaptados”, explica a professora, dando mesmo o exemplo de solidariedade entre alunos: “ainda hoje de manhã houve uma aluna que não estava na aula quando começámos e uma colega dela quis logo avisar que ela faltou por estar com um problema de internet”.

A escala global e a rapidez da disrupção no ensino a que estamos a assistir não tem qualquer paralelo” nos tempos modernos, UNESCO

O ensino remoto é feito há já um mês em Hong Kong e na China em geral. Muitos professores usam apps de videoconferência para interagirem com os alunos. Para terem bom Wi-Fi, alguns fazem-no mesmo da sala de aulas. Na foto um professor da aulas de ensino primário a crianças. (ISAAC LAWRENCE / AFP)

O ensino remoto é feito há já um mês em Hong Kong e na China em geral. Muitos professores usam apps de videoconferência para interagirem com os alunos. Para terem bom Wi-Fi, alguns fazem-no mesmo da sala de aulas. Na foto um professor da aulas de ensino primário a crianças.
(ISAAC LAWRENCE / AFP)

UNESCO está preocupada

Mesmo com soluções de ensino remoto, por vídeos ou videoconferências já em vigor em muitos estabelecimentos, incluindo em Portugal – onde se vê mais essa solução em universidades -, a UNESCO admite preocupação com o ensino de uma forma generalizada.

Ontem o organismo indicava que com o encerramento das escolas a afetar quase 80% da população estudantil do mundo, após uma reunião online na segunda-feira de um grupo ad hoc de ministros da Educação, foram partilhadas entre todos informações sobre medidas ampliadas a implementar nos vários países para apoiar professores, pais e alunos para enfrentar a situação, com foco na aprendizagem em casa. “Os desafios emergentes exigem cooperação global”, admite a instituição.

Portugal não faz parte desse grupo ad hoc, que teve a primeira reunião a 10 de março e é composto por 11 países de todas as regiões: Costa Rica, Croácia, Egito, França, Irão, Itália, Japão, México, Nigéria, Peru e Senegal. Nos últimos 10 dias, o número de estudantes afetados pelo encerramento de escolas e universidades quase quadruplicou e a diretora geral da UNESCO, Audrey Azoulay, diz que “a responsabilidade de agir é coletiva”. Foi criado, assim, a Coligação Global de Educação Covid-19 para mobilizar ainda mais a experiência de múltiplos parceiros e fortalecer o apoio às organizações nacionais.

INFO - ai_Covid-19 — Impacto na educação global

“Mais do que nunca, os alunos precisam ser acompanhados tanto academicamente quanto emocionalmente”, explicava ontem Stefania Giannini, diretora geral de educação da UNESCO. “É um alerta para os sistemas educacionais reforçarem as medidas dedicadas em ferramentas socioemocionais como a empatia e a solidariedade”, disse.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) declarava já no início de março que o encerramento de escolas trazia várias consequências difíceis de gerir: desde a falta de oportunidade para que as crianças cresçam e se desenvolvam devido à interrupção da aprendizagem (com o ritmo que tinham antes); passando pelos problemas para os pais, também eles forçados a ficar em casa, o que afeta a produtividade, a economia e o stress familiar na conciliação trabalho-vida familiar – enquanto a pressão sobre as instituições que ficam abertas aumenta drasticamente.

“Embora o encerramento temporário de escolas e o seu impacto na saúde e em outro tipo de crises não seja novo, infelizmente, a escala e a velocidade globais da atual disrupção educacional são incomparáveis e, se prolongadas, podem ameaçar o direito à educação”. E, agora, há bem mais países com escolas fechadas do que na altura.

A organização lembra que os portais de aprendizagem digital podem ajudar a solucionar o problema, mas não estão disponíveis em todas as escolas, especialmente nos países mais pobres que não têm acesso à tecnologia ou a conexões rápidas e generalizadas à internet.

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As escolas fecharam esta semana na Índia e as famílias tentam conciliar o teletrabalho dos pais com o ensino das crianças. (EPA/JAGADEESH NV)

Uma preocupação mundial

O mesmo cenário de preocupação traçado por Filinto Lima ou pela UNESCO, de desigualdades entre alunos com acessos diferentes às tecnologias, ou relativamente à avaliação que é feita e a forma como isso pode ter impacto nas crianças e jovens é visto um pouco por todo o mundo.

Na Austrália, os responsáveis federais e estaduais cancelaram os chamados testes NAPLAN, embora outros mais simples continuam previstos e ainda há dúvidas sobre quando e como os exames podem ser realizados – e como calcular os resultados finais. Muitas escolas terem transferido com relativo sucesso as aulas para versões online, onde “há a capacidade das crianças continuarem a aprender muito”, diz ao Brisbane Times Jim Watterston, professor e reitor da Escola de Educação da Universidade de Melbourne. Mas são as escolas privadas que dominam nessa matéria, com o especialista a admitir que a nível nacional “o ano perdido devido ao coronavírus pode arrastar a educação australiana para o século XXI”.

Watterston acredita mesmo que “as escolas serão diferentes [depois do coronavírus]”, já que esta necessidade imediata e urgente vai preparar-nos não apenas para situações de crises futuras “mas também a estimular e educar as crianças de uma maneira que até será mais adequada à sua geração e ao que as tecnologias atuais permitem [já que muito do conhecimento, ao contrário do que acontecia nas décadas de 1980 ou 1990, por exemplo, está online]”.

No meio do otimismo em ver esta crise como uma oportunidade de futuro, há ainda grande preocupação com as crianças sem computadores atualizados ou sem acesso rápido à internet. De acordo com um relatório do Conselho Australiano de Serviços Sociais de 2020 / University of News South Wales, cerca de 774.000 crianças com menos de 15 anos, ou 17,7% das crianças australianas estão em situação de pobreza.

Na Austrália começa a ser debatido já a possibilidade dos alunos terem de repetir o ano, algo que é visto por vários especialistas como nem prático, nem útil e muito menos inteligente “até pelos efeitos psicológicos negativos que isso possa criar em alguma crianças”.

A situação ainda é pior na Índia devido à maior desigualdade entre alunos (muitos sem acesso a computador e internet) e onde o ensino remoto é mais difícil de implementar. O país mandou no início desta semana cerca de 300 milhões de estudantes para casa – 1,4 milhões de escolas e 51 mil universidades foram encerradas por toda a Índia. O conselho principal dos especialistas indianos citados pela impresa local nesta era de incerteza com o novo coronavírus é que “todas as casas devem passar a ser uma escola e todos os pais um professor”, deixando de haver limites em o quarto para brincar e dormir e o quarto para aprender para milhões de crianças no país.

Escolas na China começaram a abrir na semana passada. Na foto uma sala de aulas na província de Guizhou, onde os cuidados ainda são muitos. (EPA/LIU CHAOFU)

Escolas na China começaram a abrir na semana passada. Na foto uma sala de aulas na província de Guizhou, onde os cuidados ainda são muitos.
(EPA/LIU CHAOFU)

  • O exemplo chinês: aulas remotas (para quem pode)

A China, como país de onde o vírus surgiu e mais impacto inicial teve, começa agora – com o número de casos de pessoas infetadas estagnado – a voltar a alguma normalidade, com negócios, fábricas e escolas a entrarem num ritmo mais normal – no caso das escolas a reabertura começou, gradualmente, a partir de 16 de março, depois de, em alguns casos, quase dois meses fechadas. O mesmo se vê em Hong Kong e Singapura, onde as medidas para conter a propagação do vírus foram rápidas, ríspidas e de paragem total e global.

Tal como Singapura, a China desde início que se tem focado nas aulas remotas, tentando transferir o ensino para o mundo virtual. Mas, enquanto Singapura (a pequena cidade-estado do sudeste asiático) tem não só as ferramentas como a maioria da população estudantil e dos professores preparados para o ensino remoto, a China, mesmo apesar dos avanços tecnológicos dos últimos anos, tem muitos mais problemas nesse domínio.

Sem técnicas generalizadas e comuns para este tipo de aprendizagem, os resultados das tentativas de ensino remoto na China devem variar bastante, mesmo que a maioria dos professores tenham experimentado apps e formatos de transmissões ao vivo de aulas, lições pré-gravadas em vídeo ou uma mistura entre ambos – muitos admitem repetir a matéria dada em aulas presenciais após a reabertura das escolas.

Numa reportagem de 17 de março o New York Times (NYT) contava que os efeitos para a educação de muitas crianças na China ainda está por calcular, já que muitos pais não se podem dar ao luxo de comprar vários dispositivos para a família – isto apesar da China ser o país que produz os smartphones mais baratos (e não só) do mundo.

“É uma grande confusão, é tudo o que posso dizer”, explicou há duas semanas Huang Ting, da PEER, uma organização sem fins lucrativos educacional presente na China, citada pelo NYT. Alguns pais ficam até irritados pelos filhos usarem os seus telefones para participar em aulas online. O motivo? “Porque assim eles – os pais – não podem estar tanto tempo a usar o Douyin, a versão chinesa da app social TikTok.

Além disso, mesmo que o país tenho tido um crescimento inédito nos últimos cinco anos em smartphones, aparelhos móveis e soluções digitais, existe todo um mundo rural onde o ensino remoto não consegue chegar. O país está coberto com serviço 4G, mas o sinal é muito irregular nas zonas rurais e a banda larga doméstica é mais cara fora das grandes cidades.

Em 2018 entre 56 e 80 milhões de pessoas na China admitiam não conseguir ter acesso à internet ou a um dispositivo com capacidade de aceder à internet num relatório estatal – outras 480 milhões de pessoas indicavam que não entravam na internet por motivos como o de não saber como.

Certo é que os alunos parecem desesperados por voltar aos seus estabelecimentos de ensino, que em zonas mais carenciadas são bem mais do que meros espaços onde se ensina da cultura humana.

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