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João Gomes (1934-2020). O primeiro profissional com uma licenciatura em jornalismo

João Gomes (1934-2020). O primeiro profissional com uma licenciatura em jornalismo

Diretor do “Diário de Notícias” e do “Portugal Hoje”, fora um dos esteios do “República” e de “A Luta”. Presidiu à Casa de Imprensa e ao Conselho Deontológico dos jornalistas. Dirigente da Acção Católica operária, esteve preso duas vezes durante o anterior regime. Fundador do PS, foi deputado constituinte e secretário de Estado da Comunicação Social

João Gomes foi o primeiro jornalista português a obter uma licenciatura em jornalismo – na então muito prestigiada Escola Superior de Jornalismo de Lille (França). Aconteceu em 1966, quando o ensino superior do jornalismo não era permitido em Portugal. Muito ligado às organizações profissionais de jornalistas, integrou os corpos gerentes do Sindicato Nacional dos Jornalistas na primeira vez em que, no final dos anos sessenta, foi eleita uma lista afeta à oposição democrática, defensora da liberdade de informação e contrária ao regime de censura. Presidiu então ao Conselho Técnico e de Disciplina (atual Conselho Deontológico), e fez parte do corpo docente do primeiro curso de jornalismo, lançado pelo Sindicato em regime pós-laboral. Em 1971, foi eleito presidente da Casa de Imprensa. A seguir ao 25 de Abril, foi um dos representantes dos jornalistas no Conselho de Imprensa, considerado o mais respeitado dos vários órgãos de regulação da profissão.

Arquivo "A Capital"

João Joaquim Gomes nasceu a 30 de junho de 1934, na freguesia de Santa Catarina, em Lisboa. Casou-se em 1959 com Maria Eugénia Gomes, de quem teve dois filhos. Começou por ser empregado de comércio, mas sempre quis ser jornalista, profissão em que se iniciou no “Diário de Lisboa”, em novembro de 1961, como estagiário, seguindo-se as categorias então existentes de repórter informador, redator e subchefe de redação. Deixou aquele vespertino em 1971, para ingressar episodicamente no matutino "Novidades", propriedade do episcopado português. Chefiou igualmente a redação da revista “Flama”.

Do “República” ao “Diário de Notícias”

Em agosto de 1972 fez parte, com Fernando Assis Pacheco, Afonso Praça, Álvaro Guerra e Vítor Direito, de uma leva de grandes profissionais que entraram no “República” e que transformaram completamente o velho vespertino. Dirigido por Raul Rego, e tendo João Gomes como repórter parlamentar, o “República” passou a ser o principal jornal da oposição à ditadura de Marcello Caetano e no próprio dia 25 de Abril de 1974 foi o único periódico a ostentar, na primeira página, com orgulho: “Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura."

A partir de 1 de maio de 1974 passou à categoria de subchefe de redação e, já em março de 1975, a chefe de redação. Após o “caso República” – uma das batalhas políticas mais controversas da revolução e que se saldou pela tomada do jornal pelos trabalhadores não jornalistas e seu posterior encerramento -, foi um dos fundadores, em agosto de 1975, do jornal “A Luta”, criado pela direção e pela esmagadora maioria dos jornalistas que antes faziam o “República”. João Gomes foi um dos seus principais esteios, como chefe de redação. Naquela que terá sido a sua última entrevista, concedida em maio de 2017 ao historiador Pedro Marques Gomes, João Gomes recordou o lançamento do novo vespertino: “Era a luta pela democracia. Nós vivíamos constantemente com receio de que o Partido Comunista pudesse vencer. Foi uma luta em que se puseram em confronto várias posições e nós situávamo-nos do lado de quem estava a defender a democracia. Acima de tudo isso: os partidos e o regime democrático. No fundo o espírito que dominava era esse espírito contra o ‘gonçalvismo’ e contra o que ele representava.”

Em agosto de 1976, na vigência do I Governo Constitucional, de Mário Soares, foi nomeado diretor do “Diário de Notícias”, que então pertencia ao Estado e era o maior jornal português. Ali se manteve até fevereiro de 1978. No ano seguinte, fundou o vespertino “Portugal Hoje”, financiado, tal como anteriormente “A Luta”, pelo PS e que dirigiu até ao seu encerramento, em 1982. Jornalista profissional durante quatro décadas, reformou-se no primeiro dia de 1999.

Dirigente da Acção Católica operária

Militante desde muito jovem da Acção Católica, foi presidente nacional da Juventude Operária Católica (JOC) no biénio de 1958-59. Ligado à oposição à ditadura e aos círculos do catolicismo progressista, participou em 1959 na chamada Revolta da Sé, uma frustrada tentativa de golpe militar contra a ditadura de Salazar, o que lhe valeu vários meses de prisão, passados nas cadeias do Aljube e de Caxias. Julgado em Tribunal Militar, foi absolvido.

Voltou a ser preso pela PIDE, a polícia política da ditadura, em 1967, era então dirigente da Pragma -Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária. De 1972 a 1974 foi presidente da Liga Operária Católica (LOC), organismo que representou na Junta Central da Acção Católica Portuguesa, presidida primeiro por António Sousa Franco e depois por Jorge Jardim Gonçalves. Já em democracia, fundou e dirigiu até à sua extinção a revista “Actos – Cristãos na Sociedade Nova”. Mais tarde, em 1996, foi um dos fundadores do Fórum Abel Varzim – Desenvolvimento e Solidariedade.

A ligação a Mário Soares

Fundador do Partido Socialista, depois do 25 de Abril integrou as respetivas Comissão Nacional e Comissão de Conflitos. Em 1975 foi eleito deputado à Assembleia Constituinte, pelo círculo de Lisboa. Foi depois deputado à Assembleia da República, em sucessivas legislaturas, até às eleições de 1985.

Arquivo "A Capital"

Logo a seguir ao 25 de Abril presidiu à Junta Central das Casas do Povo, por nomeação da então secretária de Estado da Segurança Social do I Governo Provisório, Maria de Lourdes Pintasilgo. Politicamente muito ligado a Mário Soares, integrou o II Governo Constitucional, formado pelo PS e CDS, como secretário de Estado da Comunicação Social. No IX Governo Constitucional, igualmente liderado por Mário Soares e de coligação PS/PSD, foi nomeado provedor da Santa Casa da Misericórdia, cargo que desempenhou entre 1983 e 1986.

Arquivo "A Capital"

Sofrendo de diabetes, João Gomes foi internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, no passado dia 4, onde esteve internado durante dez dias. Regressado a casa, em Campo de Ourique, viu o seu estado de saúde agravar-se no passado dia 22. Levado pelo INEM para Santa Maria, faleceu de problemas cardíacos às primeiras horas de dia 24. Tinha 85 anos. O funeral, reservado por vontade própria à família, realizou-se esta quinta-feira, para o cemitério do Alto de São João.

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