expresso.ptexpresso.pt - 26 mar 14:37

Trump quer reabrir o país na Páscoa, mas os padres respondem: “Jesus ajudava os vulneráveis, não as grandes empresas”

Trump quer reabrir o país na Páscoa, mas os padres respondem: “Jesus ajudava os vulneráveis, não as grandes empresas”

Com o presidente da Reserva Federal a avisar que a prioridade não é a economia – e sim o vírus –, que os Estados Unidos podem já estar em recessão e com os pedidos de subsídio de desemprego a dispararem para lá dos três milhões pela primeira vez na história, Trump treme. E quer tudo de volta ao trabalho a 12 de abril

Donald Trump tem medo que a economia se afunde. O tema é hoje, e sempre foi, o mais importante na lista de preocupações dos norte-americanos quando escolhem em que votar Com um coro de economistas a avisar que a crise pode ter impacto bem mais grave do que a de 2008, o que já é patente nos números do desemprego, o Presidente inquieta-se com as perspetivas de reeleição, em novembro.

Quarta-feira Trump voltou a reforçar que a economia é para relançar “na Páscoa”. No mesmo dia as infeções por covid-19 em todo o país estavam para lá das 60 mil. Em Nova Iorque já morreram 300 pessoas.

O Congresso aprovou um valor histórico de ajuda à economia, qualquer coisa como dois biliões de dólares (um 2 seguido de doze zeros, equivalente a 1,8 biliões de euros). A verba será distribuída pelas empresas (500 mil milhões) e diretamente aos contribuintes (1200 dólares por pessoa mediante avaliação de rendimentos). Mesmo assim, pode não resolver tudo.

Mais 3,3 milhões de desempregados

Esta quinta-feira o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos fez saber que 3,3 milhões de americanos pediram subsídio de desemprego, em apenas uma semana. O recorde anterior numa semana foi atingido em 1982 e o número de então, 695 mil pessoas, é bem distante deste.

“The New York Times” escreve que estes números arrepiantes não são a história completa. Alguns trabalhadores a tempo parcial e com baixos salários não se qualificam para receber subsídios de desemprego e o mesmo sucede com trabalhadores por conta própria, entre outros. Ou seja, a população sem trabalho será ainda maior. O plano de ajuda aprovado pelo Congresso vai abranger algumas destas pessoas mais desprotegidas, mas outras vão passar pelas malhas da rede.

O presidente da Reserva Federal (banco central dos EUA, conhecido por Fed), Jerome H. Powell, disse numa entrevista à NBC que o país pode muito bem já estar em recessão, mas a prioridade tem de ser o controlo da pandemia. A primeira ordem de trabalho será controlar a disseminação do vírus e depois retomar a atividade económica. O vírus é que vai ditar o calendário.”, explicou o responsável da Fed, que é independente do Governo e que tem sido alvo de críticas de Trump na rede social Twitter.

“Dou duas semanas a isto”

São números como os do desemprego que fazem Trump tremer. As presidenciais disputam-se a 3 de novembro e, ainda que o adversário ainda não seja conhecido (o calendário das primárias do Partido Democrata foi perturbado pelo coronavírus numa altura em que o ex-vice-presidente Joe Biden ia à frente), o Presidente tem na boa saúde económica do país o principal argumento para a reeleição. Não há memória recente de um chefe de Estado ter falhado o segundo mandato quando os indicadores estão tão positivos como estavam até à data.

“Dou duas semanas a isto”, disse o Presidente do relvado da Casa Branca, segunda-feira, acrescentando que milhares de americanos morrem de gripe todos os anos e em acidentes de automóvel. “Não desligamos o país por causa disso.” Trump quer acabar com as restrições ao funcionamento do país o mais depressa possível. “Nessa altura vamos reavaliar. Se for preciso mais algum tempo podemos aceitar, mas é preciso reabrir este país. Temos de voltar ao trabalho, e muito antes do que as pessoas pensam.”

O homem que tem gerido a crise de saúde, Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, faz frente a Trump e vai dizendo que o Presidente terá de ser “flexível” quanto à data de reabertura de lojas e empresas e confiar “nos dados sobre a propagação do vírus” antes de tomar qualquer decisão. Na sessão de esclarecimento diária com jornalistas, terça-feira, Fauci reforçou a necessidade de analisar muito bem a propagação do vírus.

O especialista referiu dezenas de vezes o caso de Nova Iorque. “É óbvio que ninguém vai querer suavizar as coisas enquanto for possível ver o que está a acontecer em locais como Nova Iorque. São noções simples de boas práticas de saúde pública e bom senso, disse Fauci.

Um dia depois dos avisos de Fauci, Trump voltou a reforçar que quer o país a funcionar no Domingo de Páscoa, 12 de abril, e passou boa parte da conferência de imprensa a atacar os jornalistas, como fizera de manhã no Twitter. “Os meios de comunicação gostariam de me ver falhar nas presidenciais”, acusou Trump. Num crescendo de exasperação, disparou: “Só para que entendam bem estão prontos para isto, estão? , acho mesmo que há certas pessoas que gostariam que a isto não passasse assim tão depressa. Há pessoas que gostariam que a nossa economia fracassasse financeiramente, porque isso seria muito bom para me derrotarem nas urnas”.

O Presidente prosseguiu, gesticulando e apontando especificamente para certos jornalistas que, a seu ver, escrevem notícias falsas e desejam o pior ao Presidente, “apesar do incrível trabalho que temos feito”.

Nada de missas pascais

A Internet quase implodiu com este cenário estranho: por um lado jornalistas, académicos, comentadores e editores mostraram-se chocados com a forma como Trump, uma vez mais, tratou a comunicação social. Mas o resto da população assusta-se por uma razão mais urgente: os norte-americanos não veem vontade da Casa Branca em lidar com a pandemia.

As críticas ao tom excessivamente relaxado de Trump vieram de vários sectores. Um dos mais duros foi o dos dirigentes de igrejas cristãs. A ideia presidencial de reabrir o país “para enormes celebrações de missa por todo o país” na Páscoa não teve o efeito desejado junto dessa comunidade. “É o pico da hipocrisia Trump sugerir que a Páscoa é uma boa altura para desafiar as ordens de quem cuida da nossa saúde pública e ‘reabrir’ a América”, disse o reverendo William J. Barber II, dirigente protestante citado por “The Guardian”.

Barber acrescentou que Jesus enfrentou quem queria dissuadi-lo de ajudar os pobres, enquanto Trump ignora uma pandemia: “Precisamos de ressuscitar a preocupação de Jesus pelos mais vulneráveis, não de capitular perante a ganância das grandes empresas, que pode custar-nos milhões de vidas”.

Laura Everett, pastora e diretora executiva do Conselho de Igrejas de Massachusetts, mostrou o seu desagrado: “Ainda estou com os nervos em franja por Trump ter decidido açambarcar a Páscoa como valor capitalista”, escreveu no Twitter.

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