expresso.ptexpresso.pt - 26 mar 09:32

Covid-19. Bolsas regressam ao vermelho à espera de cimeira europeia

Covid-19. Bolsas regressam ao vermelho à espera de cimeira europeia

Depois de duas sessões com ganhos, as bolsas da Ásia e da Europa estão em queda esta quinta-feira. Superpacote de 2 biliões de dólares americano foi ofuscado pelos riscos de uma depressão profunda e do regresso de divisões políticas agudas na zona euro

O superpacote de 2 biliões de dólares (€1,9 biliões) que deverá ser aprovado pelo Congresso norte-americano ainda na sexta-feira não foi suficiente para travar o regresso do pessimismo às bolsas esta quinta-feira.

Depois de ganhos bolsistas de 11% à escala mundial e de uma subida de 12,5% na zona euro durante dois dias seguidos, o vermelho regressou.

A União Europeia e a zona euro vivem esta quinta-feira um dia crítico. Os mercados aguardam as decisões da cimeira de líderes da União num ambiente em que nove chefes de estado e de governo apelaram formalmente a uma iniciativa de coronabonds para mutualização da dívida que for emitida para responder à crise.

Além destes responsáveis políticos que vão para além do tradicional grupo dos periféricos do Sul (que foram resgatados total ou parcialmente na anterior crise de dívida), também vários governadores de bancos centrais (como o português) se pronunciaram publicamente pelos coronabonds. Christine Lagarde, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), terá defendido a mesma solução aquando da sua participação na reunião do Eurogrupo desta semana.

As praças na Ásia fecharam a sessão com quebras nas principais bolsas da região, com exceção de Mumbai e Sydney. O índice Nikkei 225 de Tóquio (a principal bolsa da região) fechou com uma quebra de 4,5%.

Na Europa, as praças abriram a negociar no vermelho, e mesmos as bolsas de Lisboa e Varsóvia que chegaram a registar ganhos na abertura, estão, agora, no vermelho. Londres, Amesterdão e Frankfurt lideram as quedas, com perdas de mais de 2%. Em Lisboa, o PSI 20 está a perder menos de 1%.

Em Wall Street, os futuros do índice S&P 500 estão em queda.

O risco da recessão - já dada como certa - em 2020 se transformar numa depressão ao estilo dos anos 30 do século passado assusta os mercados.

Dia crítico na Europa

A cimeira de líderes dos 27 da União vai decorrer esta tarde e tem em cima da mesa a exigência de uma resposta coordenada e comum à crise provocada pela Covid-19.

Mário Draghi, o ex-presidente do BCE, defendeu na quarta-feira no Financial Times que a Europa terá de agir "em força e com a velocidade suficiente para impedir que a recessão se transforme em uma depressão prolongada, aprofundada por uma série de defaults que deixarão danos irreversíveis", que poderão recordar "sofrimentos dos europeus na década de 1920". O economista italiano exortou, por isso, a "uma mudança de mentalidade" perante circunstâncias imprevistas, como seria "em tempo de guerra".

O lóbi das multinacionais europeias publicou esta quinta-feira um apelo aos líderes europeus para uma resposta coordenada do Conselho Europeu, da Comissão Europeia e do BCE. A European Round Table for Industries (ERT) quer, tal como Draghi, que a recessão evite uma depressão. Quer "uma recuperação em 'V' em vez de uma em 'L'".

A Standard & Poors avança que a crise na zona euro poderá variar num intervalo entre uma quebra de 2% a 10% do PIB. O cenário mais pessimista poderá ocorrer se a quarentena das atividades durar quatro meses. Outra agência, a Moody's decidiu baixar o outlook de estável para negativo nos sectores bancários de Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Holanda e Itália, colocando-o ao mesmo nível da Alemanha e Reino Unido. Uma perspetiva negativa sinaliza que a agência de rating poderá agravar a notação da banca.

A tomada de posição de nove governos a favor dos coronabonds é interpretada politicamente como um dado novo.

O historiador britânico Adam Tooze, professor na Universidade de Yale nos EUA, foi ao Twitter para dizer que "quando alguém toma aquela posição, o jogo muda, redefinem-se os termos da relação". O colunista Wolfgang Munchau completou, depois, o raciocínio político de Tooze, alertando que, "se a proposta [dos nove] for rejeitada, é de esperar, pelo menos em alguns países um debate sobre os custos e benefícios de ser membro".

Do Eurogrupo deste semana saiu um "apoio amplo", nas palavras de Mário Centeno, o seu presidente, para o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) por parte dos países que ficarem numa situação mas frágil no financiamento nos mercados. O mecanismo em estudo é a transformação de uma das linhas de crédito condicionado do MEE numa linha de apoio especifico à crise pandémica, a que os países poderão recorrer até um montante de 2% do PIB.

O BCE, entretanto, anunciou oficialmente que o programa especial de compras com um montante de 750 mil milhões de euros vai comprar dívida desde o prazo de 70 dias (no programa normal o limite é 2 anos) e que os critérios que impedem compras acima de 33% serão revistos, se necessário.

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