expresso.ptVítor Matos - 26 mar 00:09

'Pandemocracia', verdade e salvação

'Pandemocracia', verdade e salvação

Sr. Presidente, ninguém nos está a mentir? Marcelo garantiu que nos ia ser dita sempre a verdade, mas os profissionais de saúde dizem que isso não está a acontecer. António Costa está com um índice alto de aprovação, mas nas próximas semanas tudo pode mudar na proporção inversa do número de mortos. Daqui a uns meses, o tsunami económico também mudará a política portuguesa. Democracia em tempos de pandemia

Quando morreram 40 pessoas, o prefeito de Orão mandou isolar os doentes e desinfetar as casas. Decretou uma “quarentena de segurança”, mas “os soros” que chegavam por avião eram insuficientes para tratar todos os casos. Dias depois, recebeu um telegrama da metrópole: “Declare o estado de peste. Encerre a cidade”. E a cidade encerrou.

O nosso mundo é todo Orão, a cidade que inspirou Camus. Não é “A Peste”, é aqui. Os nossos prefeitos a decretarem quarentenas, emergências, a encerrarem cidades, nunca na vida pensaram tomar decisões tão graves. Não era suposto o mundo transformar-se num filme-catástrofe, porque a ciência tornava as nossas sociedades invulneráveis. Isso acabou. Para quem geriu outras crises tão mal, António Costa tem sido um estadista, mesmo tendo sido empurrado por Marcelo Rebelo de Sousa a decretar o estado de emergência (uma decisão que se impunha). O Presidente teve coragem de usar um instrumento inédito e o primeiro-ministro não perdeu por ceder. Talvez venha a poupar umas centenas de vidas e a precaver uns tantos imbróglios jurídicos. Ficaremos agradecidos aos dois.

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