rr.sapo.ptrr.sapo.pt - 26 mar 10:45

​“Hora dramática” na agricultura. Linha de crédito de 60 milhões "é um paliativo"

​“Hora dramática” na agricultura. Linha de crédito de 60 milhões "é um paliativo"

Os agricultores consideram que as linhas de crédito lançadas pelo Governo são um paliativo e não uma solução para atenuar os efeitos da Covid-19 no setor.

Os agricultores estão apreensivos devido ao novo coronavírus que pode ter impactos na agricultura ao nível do escoamento dos produtos, contenção de exportações e falta de mão de obra.

“O setor do azeite está a viver uma hora dramática”. O alerta é do presidente da Direção da Associação de Produtores em Proteção Integrada de Trás-os-Montes e Alto Douro (APPITAD).

Francisco Pavão explica que os produtores que “vendem para as grandes superfícies, ainda vão vendendo”, mas “os mercados locais, a venda a retalho e a restauração, estão parados”.

“A restauração está completamente fechada, as lojas ao retalho estão completamente fechadas e mesmo a exportação está com grandes dificuldades. O nosso principal mercado, Brasil, pode fechar fronteiras a curto prazo. As encomendas estão todas paradas e aquelas que estavam para sair foram pedidas para saírem mais tarde”, conta à Renascença.

“É uma hora dramática. É uma hora em que começamos com um preço muito baixo do azeite e o azeite não sai, o azeite está nos armazéns. As pequenas lojas deixaram de vender e os mercados de exportação estão todos a estagnar”, alerta o produtor.

Os olivicultores pedem, assim, às entidades responsáveis para que não haja uma quebra nos fatores de produção e que se mantenha a sustentabilidade da produção para 2020.

“O nosso principal problema é se começam a escassear esses fatores de produção, se começam a escassear os fertilizantes, os fitofármacos. E esse é que é o grande problema. Se não há transportes, transporte rodoviário, se os transportes de camião não fluem, para trazer os fatores de produção, este é para nós o grande problema”, salienta o presidente da APPITAD.

Produtores de cordeiro “amedrontados”

Também os produtores de carne de cordeiro de raça churra mirandesa estão “amedrontados”. O futuro das explorações é incerto, com quebras expressivas nas vendas provocadas pela pandemia da covid-19.

De acordo com a secretária técnica da Associação Nacional de Criadores de ovinos de Raça Churra Mirandesa (ACORCM), Andrea Cortinhas, “os produtores estavam com grandes expectativas para o período da Páscoa, porque há bastante produção disponível. Com o encerramento dos restaurantes, e não sabendo como funciona a cadeia de distribuição das grandes superfícies, estamos amedrontados”.

O cordeiro de raça churra mirandesa é um produto com Denominação de Origem Protegida (DOP) e o receio dos produtores prende-se com “a baixa do preço das carcaças, numa altura em que o produto é mais valorizado, como é a época de Páscoa”.

A venda do produto acontece também nas explorações e “os negociantes deste tipo de produtos aproveitam-se um pouco das fragilidades que o mercado atravessa neste momento”, alerta a técnica.

Apesar das medidas de contingência, os pastores vão mantendo a sua atividade “porque os animais têm de comer e ser tratados”.

Pode não haver mão de obra para as colheitas

No vale da Vilariça, a maior zona de produção de hortícolas do distrito de Bragança, vivem-se tempos de angústia.

“Os produtores de leite - aqui há alguns ovinos de leite, já estão com dificuldade em escoar. As fábricas de queijo já começam a recusar e os que não recusam, estão a descer muito os preços”, conta à Renascença o presidente da associação de agricultores, José Almendra.

Também ao nível das hortícolas se registam problemas, porque, explica o presidente da associação, “os pequenos horticultores que faziam venda direta nos mercados locais e em feiras deixaram de o poder fazer, já não estão a conseguir vender. E esta fase era muito importante, porque é um pouco o auge da venda de plantas, e não estão a conseguir realizar dinheiro, estão a perder o negócio”.

No setor da fruticultura há muitas incertezas e a maior preocupação situa-se no tempo das colheitas e na falta de mão de obra.

“Está agora a iniciar um novo ciclo das culturas. Ainda não há certezas dos preços e do escoamento, porque as colheitas começam mais ou menos em maio. Mas, no imediato, a maior preocupação dos fruticultores é a mão de obra. Uma boa parte da mão de obra nas colheitas é realizada com estrangeiros, com imigrantes, e estamos na expetativa de ver o que é que vai acontecer, porque podemos não conseguir arranjar mão de obra suficiente com estes bloqueios”, explica José Almendra.

Já no setor da castanha, o presidente da Associação de Agricultores para Valorizar o Futuro (AgriFuturo), com sede em Carrazedo de Montenegro, refere à Renascença que, nesta altura, “os produtores ainda conseguem fazer algum trabalho”.

“Com restrições todos nós vamos tratando das nossas plantas, dos nossos soutos sozinhos e muito apreensivos com esta situação. Não podemos parar, porque as plantas precisam de acompanhamento, de nutrição”, conta Lino Sampaio.

A maior preocupação está relacionada com “estruturas que fazem a parte da castanha congelada e que ainda estão a laborar para transformar a castanha em fresco em castanha congelada. E com esta crise poderão esses stocks não serem gastos”.

“Isso poderá originar que no próximo ano estes operadores podem aparecer com um stock máximo. As pessoas vão ficar com menos dinheiro e vão optar por produtos mais baratos”, explica o presidente da AgriFuturo.

Ministério da Agricultura adianta 60 milhões de apoios da PAC

O Ministério da Agricultura anunciou que vai iniciar, na primeira semana de abril, a atribuição de adiantamentos para liquidação de pedidos de pagamento no âmbito do PDR2020 (Programa de Desenvolvimento Rural 2014-2020), dos Programas Operacionais Frutas e Hortícolas e do Programa Nacional de apoio ao setor vitivinícola, com regularização posterior, no valor de 60M€.

Em nota enviada à comunicação social, o ministério refere ainda que “durante o mês de março, terá lugar a liquidação de pagamentos no âmbito de um conjunto de medidas de apoio ao setor, no valor de cerca de 30M€”.

“Esta medida junta-se a outras como a Linha de Crédito Capitalizar 2018 – Covid-19, o alargamento de prazos para submissão das candidaturas no âmbito do Pedido Único 2020 e do PDR2020 e o reembolso das despesas incorridas em ações e iniciativas canceladas ou adiadas devido à COVID-19”, lê-se na nota de imprensa.

O ministério de Maria do Céu Albuquerque refere ainda que o setor da agricultura poderá contar com “medidas de natureza fiscal e contributiva, bem como com apoios da Segurança Social a trabalhadores e empregadores”.

Linhas de crédito são paliativo. Não são solução

O presidente da Associação dos Agricultores do Vale da Vilariça considera que as medidas do Governo “não têm qualquer impacto no agricultor”.

“As medidas destinam-se a empresas grandes, ou seja, apoiar com empréstimos não é a solução para a pequena agricultura”.

Em relação ao adiantamento de apoios da PAC, José Almeida entende que “todas as ajudas são importantes”, mas defende uma maior discussão das medidas e que estas devem ter “um carácter mais prático e mais imediato” e dá como exemplo “a isenção da segurança social e para quem tenha salários a pagar, haver um apoio direto, porque, neste momento, com a falta da realização de capital não é fácil”.

Já Francisco Pavão afirma que as linhas de crédito são “um paliativo” que depois vão “ter de pagar”.

“Neste momento, o que nós mais precisamos é que nos deixem trabalhar, que deixem os agricultores continuarem no campo, que não faltem os fatores de produção, que não faltem os adubos, os fitofármacos, que não falte o gasóleo, essas são as medidas reais”, defende o presidente da APPITAD, saudando, no entanto, “o adiantamento das ajudas” no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural.

“O que nós queremos mais é a antecipação das ajudas do que propriamente as linhas de crédito. Os agricultores querem e são parte da solução e, portanto, o crédito não nos vem ajudar em nada. Vai dar-nos o dinheiro para, mais tarde, termos que o pagar”, conclui.

O presidente da AgriFuturo, Lino Sampaio, declara que o “Governo fez muito bem em lançar este tipo de medidas para nos tranquilizar” e está à espera para “ver as medidas no terreno”.

“Tudo o que venha para poder minimizar este flagelo é bem-vindo. E todos nós temos que pensar que temos que viver algo muito novo e também temos que ter alguma prudência na maneira como reagimos, porque sabemos que isto é novo para toda a gente e não podemos criticar quem nos governa porque, neste aspeto, até acho que estão a fazer tudo o que está ao alcance deles, possível e impossível”, considera o presidente da AgriFuturo

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