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Não se pode combater um inimigo que não se vê

Não se pode combater um inimigo que não se vê

Faço um apelo à Direcção-Geral da Saúde e ao Serviço Nacional de Saúde para usarem todos os recursos disponíveis para aumentar o número de testes o quanto antes.

Todos os dias espero com ansiedade o relatório diário da Direcção-Geral da Saúde (DGS) com os números do dia. Todos os dias até ontem [quarta-feira] tenho ficado um pouco mais triste com a progressão do número de casos e mortos, mas ciente de que a trajectória que a linha seguia era a natural. Eu afinal de contas já analisei epidemias de SARS, MERS, gripe, dengue, ébola e influenza (só para mencionar as virais). Tudo decorria como o expectável... até ontem!

Os dados reportados ontem pela DGS revelam uma anomalia muito grande. Quão grande? Ao invés dos cerca de 500 novos casos reportados, tivemos apenas 302. Se tivermos em conta a dinâmica que a epidemia seguiu nos últimos 14 dias, para este valor ser o real valor do número de casos que deveríamos observar hoje, teríamos de assumir que o número de novas infecções foi reduzido em mais de 90% nos cinco dias precedentes.

Sei que isto parece estranho a muita gente e que modelos matemáticos são modelos matemáticos. A minha resposta e a seguinte: com certeza que modelos são modelos, mas dados são dados, e se o modelo se comportava como os dados, porque deixou de o fazer?

Quando um sistema dinâmico apresenta este tipo de comportamento brusco, vamos a procura das causas. Sabemos que já esta em exercício um esforço de contenção desde o dia 14 Marco e que este se intensificou no fim-de-semana (pelo menos para os que não foram a praia). Mas o modelo revela que o impacto teria de ser demasiado grande para ser credível. Então o que poderá causar esta divergência?

Olhando atentamente para os relatórios diários, vemos que temos à nossa disposição vários índices epidemiológicos, incluindo o número de casos suspeitos, o número de casos em vigilância e o número de casos que aguarda confirmação laboratorial. Ora como todos já sabemos, o número de novos casos diários cresce exponencialmente na fase inicial de uma epidemia. O numero de casos suspeitos deverá naturalmente seguir o mesmo curso. O número de casos em vigilância é de difícil interpretação, mas dada a sua magnitude (nas dezenas de milhar), poderemos inferir que se trata de potenciais contactos em cadeias de transmissão identificadas, mas que não apresentam qualquer sintoma da doença.

E precisamente aqui que o mistério se adensa. Como é que na fase de crescimento exponencial de uma epidemia este número estagna? No dia 21 de Março de 2020 foram reportadas 13 mil pessoas em vigilância. Desde aí esse número baixou para 11.800. Seria uma excelente indicação da performance do sistema nacional de saúde se essa baixa fosse um sinal de que o número de testes aumentou nesse período de tempo e, por isso, teríamos eliminado mais potenciais casos da equação.

Qual o meu espanto quando calculo o número de testes realizado e observo a tendência do número de casos que aguarda confirmação laboratorial... O número de testes não acompanhou o aumento do número de casos suspeitos. Pelo contrário! Atrasa-se a um ritmo exponencial. Agora que sabemos o que isso quer dizer, compreenda-se a magnitude do problema: o numero de testes que fica por realizar está a aumentar exponencialmente a uma taxa de 20% ao dia.

PÚBLICO - Foto O número de testes que fica por realizar está a aumentar exponencialmete a uma taxa de 20% ao dia.

Um crescimento mais lento do que as curvas de novos casos diários, casos acumulados e casos suspeitos, é certo. Mas ainda assim, um crescimento exponencial. Quais as implicações disto? Se calcularmos o quociente entre o número de testes por realizar e o número de casos suspeitos, teríamos num mundo perfeito 0. Se testarmos todos os casos suspeitos, ficaremos obviamente sem testes por realizar. Se este número for 0,1 quer dizer que por cada dez novos casos suspeitos apenas nove serão testados. E exactamente isso que aconteceu durante a última semana em Portugal.

A linha laranja dá-nos precisamente esse valor e mostra que consistentemente desde o dia 13 de Março apenas 90% dos testes diários necessário foi feito.

PÚBLICO - Foto A linha laranja mostra que consistentemente desde o dia 13 de Marco apenas 90% dos testes diários necessarios foi feito. Ricardo Águas

O problema é que esse número se vai acumulando. Se chegarmos ao número máximo de testes que pode ser feito num dia, isso quer dizer que vamos estar a reportar casos com pelo menos dois dias de atraso!

Parece-me que atingimos já esse número crítico. Apesar de ser algo críptico como obter esse número, é possível aceder ao número de testes realizados diariamente.

PÚBLICO - Foto Ricardo Águas

Se no dia 16 de Março (segunda-feira) ainda se conseguiram fazer mais testes que o número de casos suspeitos, presumivelmente para suprir a descida desse número no fim-de-semana, esta segunda-feira, 23 de Março, foram feitos apenas 78,83% dos testes necessários para identificar os potenciais novos casos diários.

Parece notar-se uma saturação, e possivelmente uma priorização na cadeia de testes virológicos e na identificação de novos casos suspeitos e cadeias de transmissão. Note-se nas linhas azul e cinzenta acima que o número de casos em vigilância por caso notificado e o número de casos suspeitos por caso identificado apresentam uma descida muito pronunciada. Deveria ver-se este fenómeno, sim, mas nunca antes de 19 ou 20 de Março, os dias em que as medidas de contenção anunciadas a 14 Marco poderiam começar a surtir efeito.

Faço um apelo à DGS e ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) para usarem todos os recursos disponíveis para aumentar o número de testes o quanto antes. Todos os investigadores em instituições de investigação em Portugal com um laboratório CL3 que tenham capacidade de fazer extracção de RNA/DNA e qPCR com certeza estão ansiosos para se juntar a causa e trabalhar as horas necessárias para o número de testes realizado não ser um factor limitante.

Esta é a minha leitura da situação. Espero que esteja errado... para o bem de todos.

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