expresso.ptexpresso.pt - 26 mar 16:29

Covid-19. Obrigação de ficar em casa deixa sem sustento muitos milhões na Índia

Covid-19. Obrigação de ficar em casa deixa sem sustento muitos milhões na Índia

Muitos indianos têm trabalhos precários onde ganham apenas o suficiente para comer no próprio dia. O súbito desaparecimento dessa base mínima deixa-os numa situação desesperada

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, ordenou aos 1.300 milhões de cidadãos do seu país que fiquem confinados em casa durante 21 dias, para combater a pandemia de covid-19. Se não o fizerem, disse, o país corre o risco de retroceder 21 anos.

A ordem está a ser aplicada muitas vezes de forma violenta pela polícia, que agride violentamente quem não a cumpre. As imagens de agentes com máscaras na cara a baterem com paus em cidadãos já estão a chocar a opinião pública. Se o coronavírus é uma ameaça bastante real, não é a única. Num país onde grassa a pobreza extrema e onde a sobrevivência de muita gente ainda é literalmente decidida dia a dia, a situação arrisca-se a produzir fome em massa, acompanhada por outras patologias, incluindo abusos e violência em várias formas, não raro dirigidas às crianças.

Ao contrário do que acontece em países mais ricos, na Índia uma parte substancial dos trabalhadores não pode trabalhar a partir de casa. Nas cidades há milhões de trabalhadores que procuram ganhar o equivalente a um euro ou dois por dia, fazendo serviços diversos, desde transportes a distribuição de comida e assistência a pessoas em casa. Muitos desses trabalhos ficam agora interrompidos, apesar de Modi ter garantido que os fornecimentos essenciais estavam garantidos no país.

Para indianos oriundos de zonas rurais que emigraram para as cidades por razões económicas e ficaram subitamente sem quaisquer rendimentos - ou até sem casa onde ficar, num país onde não existe uma rede social que os proteja de passar fome -. a única solução é tentar regressar a casa. O facto de os transportes estarem oficialmente parados faz com que muitos estejam a fazê-lo a pé, percorrendo distâncias que podem chegar às centenas de quilómetros.

"Para salvar a Índia, para salvar todos os seus cidadãos, para se salvar a si e a vossa família, cada cidade e cada bairro, estão a ser postos em recolher obrigatório", explicou Modi na sua comunicação televisiva de terça-feira. Embora muitos indianos tenham apoiado a decisão, também há quem a critique por ter sido tomada sem o necessário planeamento - por exemplo, para evitar que as pessoas a fugir das cidades levem a doença para as suas zonas de origem.

O dilema entre os imperativos de saúde e a necessidade de proteger a sobrevivência económica dos cidadãos, que tem sido bastante discutido nos países ricos, atinge proporções catastróficas noutras partes do mundo. Na Índia, como na Nigéria e nas Filipinas, por exemplo, milhões de pessoas vivem em condições de precariedade económica extrema, à qual se soma o facto de viverem em bairros onde há grande proximidade física entre os residentes mas faltam condições mínimas de higiene.

Um portefólio no site do jornal britânico "The Guardian" mostra as dificuldades de manter a distância física em bairros de lata de Manila, a capital filipina, apesar das regras estritas de quarentena que foram impostas ao país inteiro e que o exército está a supervisionar. O tamanho exíguo e a falta de condições nas habitações faz com muitos dos habitantes prefiram ficar na rua, junto a elas. Simplesmente à espera de poderem regressar à normalidade da sua existência precária, que agora se tornou desesperada.

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