expresso.ptexpresso.pt - 26 mar 23:01

Covid-19. Como Taiwan conteve a epidemia à partida

Covid-19. Como Taiwan conteve a epidemia à partida

Um dos raros casos de sucesso na matéria foi essa ilha que, tal como Hong-Kong e Singapura, ainda tem presentes as cicatrizes da SARS em 2003 e não quis que os mesmos erros se repetissem

Um dos poucos países que parece ter gerido de forma adequada a crise do coronavírus desde o início é Taiwan. Embora tenha uma população de 23 milhões e se encontre a 130 quilómetros da China, com quem tem ligações estreitas e de onde recebeu 2,7 milhões de visitantes em 2019, Taiwan regista até ao momento apenas 252 casos de infeção, com dois mortos. O segredo parece claro: preparação.

Um estudo publicado no "Journal of the American Medical Association", uma revista de referência, explica as medidas adotadas por Taiwan nas semanas iniciais da epidemia. Segundo o autor, Jason Wang, oriundo da ilha e atualmente na Universidade de Stanford, California, a epidemia de SARS em 2003 levou Taiwan a tomar providências para assegurar que no futuro o país estaria em melhores condições para lidar com um evento futuro do mesmo género. Entre essas providências consta o estabelecimento de um centro de comando central para epidemias.

A 20 de janeiro, escassas semanas depois de a existência da Covid-19 ser conhecida, o comando encontrava-se em funcionamento, compilando uma lista de 124 ações que foram implementadas a partir desse momento, desde controles fronteiriços a políticas para escolas e para o trabalho, bem como aspetos que tinham a ver com a avaliação e gestão das capacidades do sistema de saúde.

Mesmo antes disso, semanas antes de ser confirmado que o vírus se transmitia entre seres humanos, as autoridades da ilha já estavam a controlar as chegadas de viajantes ao país, abordando-os no avião, apurando a sua história de viagem e fazendo-lhes testes com o objetivo de localizar à partida quaisquer casos suspeitos e isolá-los.

Estado paga quarentena aos cidadãos, mas multa-os se não cumprirem

O esforço de traçar contactos das pessoas infectadas foi sempre meticuloso e o facto de a base de dados nacional dos seguros de saúde estar integrada com a da alfândega e da imigração permite aos médicos do país identificar instantaneamente se uma pessoa que estão a atender tem uma história de viagem que possa suscitar preocupações.

Os cidadãos postos em quarentena recebem um pagamento do Estado, mas se saírem de casa durante o período respetivo ficam sujeitos a multas. Esse risco parece ter sido minimizado por formas de comunicação pública acerca do vírus que foram sempre diretas e transparentes - outro elemento-chave da estratégia. Tentativas de desinformação eram rapidamente combatidas e o facto de o vice-presidente do país ser um reputado epidemiologista também terá ajudado a credibilizar as medidas e as recomendações emitidas, incluindo a de não açambarcar máscaras, dando prioridade no seu uso aos profissionais de saúde.

Nem tudo foi perfeito. Além de as comunicações não terem sido efetuadas nas línguas de várias populações com representação significativa na ilha, mas apenas em mandarim e em linguagem gestual, Wang nota que foi permitido a passageiros do Diamond Princess desembarcarem antes de esse navio de cruzeiro, onde mais tarde se detetaram dezenas de infeções, seguir viagem em direção ao Japão.

Subsequentemente, isto gerou alarme público e o governo publicou a lista dos cinquenta locais prováveis que os turistas teriam visitado, pedindo a quem pudesse ter tido contacto com eles que verificasse se tinha sintomas e, a ser o caso, se isolasse voluntariamente. Comparando a contenção de uma epidemia a uma corrida de cem metros, Wang diz que Taiwan tinha um avanço à partida. "É um exemplo de como uma sociedade pode responder rapidamente a uma crise e proteger os interesses dos seus cidadãos", escreve no estudo.

"Dada a continuada disseminação da Covid-19 pelo mundo, compreender os items de ação que foram rapidamente implementados em Taiwan e a eficácia dessas ações a prevenir uma epidemia em larga escala, pode ser instrutivo para outros países", diz. Mesmo que para alguns a lição, ao fim de longas semanas, possa já vir tarde.

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