expresso.ptGonçalo M. Tavares - 26 mar 07:12

Diário da Peste. Por vezes, no mundo terrível

Diário da Peste. Por vezes, no mundo terrível

Opinião de Gonçalo M. Tavares

Diário da Peste,
25 de março de 2020

Por vezes, no mundo terrível, pessoas abrem um pouco a porta de casa e cospem à passagem de estrangeiros.
Estrangeiro, numa certa língua eslava, dizem-me, significa mudo.
Aquele que não fala a minha língua, é mudo.
Aquele que não tem a minha história, é mudo.
“Vírus detectado nos esgotos na Holanda”.
“Sol sai à rua, mas chuva volta a cair esta quarta-feira”.
Há barcos que estão atracados à espera de autorização para despejar a carga humana.
A natureza deve estar a olhar estupefacta para os humanos.
Por que se estão a retirar?
Duas cadelas.
Jeri, diminutivo de Jeriquaquara, brasil.
7 anos. E Roma, pastora belga.
Um ano.
A minha cadela Roma está agitada.
Energia excessiva por metro quadrado.
“Sobe para 30 o número de médicos que morreram em Itália.”
Deixa; agora outra coisa.
Somos monges, sim, mas sem a crença.
Isolar-se por medo ou precaução não é o mesmo que isolar-se por fé.
Virilio falava da "destruição do ambiente pela velocidade".
Accioli em Itália, na zona Norte, está a correr em casa no mesmo sítio para não ficar louco.
Ficar no mesmo sítio, mas de forma rápida.
Destruir a própria casa pela velocidade.
Destruir a família pela velocidade.
Destruir a família pela lentidão.
Vejo uma corrida de Bolt.
Record de 100 metros, 9, 58 segundos.
“Sol sai à rua, mas chuva volta a cair esta quarta-feira”.
Imagino as pessoas a saírem de casa e a irem festejar com Bolt o record do mundo.
Estar o mínimo de tempo fora de casa.
Fazer o essencial e voltar.
Ser um velocista, mas no trajecto ir fazendo coisas com as mãos.
Comprar alimentos.
Conduzir o carro.
A velocidade da cabeça e a velocidade das mãos.
Ouvir rádio no carro e exigir um aumento de velocidade da fala.
Que na rádio começassem a falar com as rotações erradas.
Lembro-me de um vinil.
Uma história infantil do lobo mau e dos três porquinhos. Num disco.
Dizia que o lobo era mau, muito mau, todo mau.
Mas ninguém é mau, muito mau, todo mau.
"a catástrofe seria a presença simultânea de todas as coisas", disse Sloterdijk, numa entrevista antiga.
A catástrofe agora como a ausência de todas as coisas.
Notícias com dois dias.
Na Croácia um terramoto exige que as pessoas saiam à rua e um vírus exige que as pessoas fiquem em casa.
As pessoas saem à rua, mas permanecem com espaço entre si.
Estão baralhadas: saio, fico.
Roma abana a cauda, tem sede.
Jeri, pacata, consome energia a olhar para as coisas.
Pego num anjo de vinte centímetros de altura.
É feito de um material estranho.
Parece mole por dentro.
Vou buscar uma faca de cozinha.
Páro.
Deixo o anjo e a faca de cozinha lado a lado.
A ver se a faca torna mais bravo o anjo, a ver se o anjo amolece a faca.
Estou a olhar para os dois como se fossem dois amigos recentes.
Mas não são.
738 mortos em Espanha.
Em Itália, 683.
Portugal, Espanha, frança, Itália, Estados Unidos, Brasil, Irão, Coreia do Sul, Holanda, Bélgica.
A temperatura de um país é medida pelo número de mortos.
Uma temperatura negra, grotesca.
Filha da puta de temperatura.
Ouvir um número como se ouve uma resposta.
Mas ninguém fez nenhuma pergunta.
As lojas de hamburgers no Reino Unido estão a fechar.
Leio um livro sobre características dos animais.
Cada animal tem uma maluquice própria.
Há muito medo nos lares.
É como uma ameaça pública feita aos mais velhos.
O que sentirá quem tem mais de setenta anos, mais de oitenta anos?
A roupa tem de ser lavada pelo menos a setenta graus.
É preciso queimar o inimigo,
Gosto de um verso, mas esqueci-me dele.
Roma brinca com Jeri, as duas não percebem nada.
O meu anjo está boquiaberto.
Mas não foi por vontade própria.
Fui eu que lhe abri a boca à força.
Mas está espantado com tudo isto.
Mesmo os seres que vêm lá de cima não entendem muito bem o que está a acontecer cá em baixo.
O anjo está de boca aberta.

1
1