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Moçambique: Pemba mantém-se calma, mas presos foram transferidos para dentro da cidade

Moçambique: Pemba mantém-se calma, mas presos foram transferidos para dentro da cidade

Muitos deslocados de Quissanga e Mocímboa da Praia chegaram à capital de Cabo Delgado. Dizem que os jihadistas só destruíram edifícios públicos e atacaram os polícias. Porta-voz dos insurgentes afirma que querem instalar a lei de Alá.

Os grupos armados que há mais de dois anos espalham o terror na província de Cabo Delgado estarão a beneficiar do apoio da população e da inacção das forças militares. Depois de atacarem as capitais de distrito de Mocímboa da Praia e de Quissanga, os jihadistas divulgaram vários vídeos, amplamente partilhados nas redes sociais, onde defendem a implantação da lei corânica e a criação de uma zona libertada da Frelimo, sob o estandarte negro da jihad.

Os relatos dos que nestes últimos dias fugiram das vilas atacadas para Pemba, a capital da província, dão conta da violência contida dos insurgentes que atacaram apenas os comandos distritais da polícia e os edifícios da administração.

Segundo Gerson do Amaral Malute, activista social de Pemba, membro de várias organizações da sociedade civil que, por receio de represálias, preferiram não ser identificadas, os que fugiram contam que os jihadistas “tinham alvos bem definidos, apenas alvos militares e instituições governamentais”. No entanto, “sempre existe aquele medo, por verem a sua segurança vandalizada, então preferiram fugir para a cidade capital”.

Na capital de Cabo Delgado, a província mais a nordeste de Moçambique, a uma centena de quilómetros a sul de Quissanga, a situação mantém-se calma e não há sinais de que os militares se estejam a preparar para uma contra-ofensiva ou para defender a cidade de um qualquer ataque.

“Aqui dentro da cidade, nós temos três quartéis – um da unidade de intervenção rápida e dois das FADM [forças armadas] – e a sua movimentação é normal”, descreve. “A única medida de que me apercebi nos últimos dois dias foi que a polícia retirou os presos que estavam na unidade penitenciária nos arredores de Pemba e colocou-os em celas dentro da cidade”, refere.

Surpresa

Tanto em Mocímboa da Praia como em Quissanga, os ataques aconteceram de madrugada e terão apanhado os agentes da polícia de surpresa. Os vídeos mostram que em Quissanga, mais de uma dezena de polícias foram mortos pelos jihadistas. Um dos cadáveres filmados, de calções e chinelos, está atravessado à entrada de uma das tendas que serviam de caserna dos agentes. A metade superior tombada para dentro da tenda.

Os jihadistas filmam com esmero os danos que causaram, mostram o polícia que se escondeu debaixo de um dos patrulheiros e aí foi morto, os edifícios destruídos e alguns jihadistas recolhendo espingardas. Os revoltosos conseguiram apossar-se de armas, munições e viaturas.

Populares, mulheres, homens, crianças andam por ali enquanto os jihadistas juntam o seu espólio – há muita curiosidade e, aparentemente, pouco receio. “Percebe-se que a população é cúmplice desta situação”, conta Gerson Malute.

“Segundo relatos das pessoas que chegaram de Mocímboa da Praia, quando a vila foi tomada não houve apoio das unidades militares mais próximas. E existe um vídeo das pessoas ovacionando os insurgentes no dia da sua retirada”, explica o activista. As imagens mostram gente alegre, cantando, correndo atrás e fazendo a festa de despedida dos jihadistas que partem num camião.

Em contraste com o termo “malfeitores”, usado pelo comandante da polícia, Bernardino Rafael, na sua conferência de imprensa de segunda-feira em Maputo, a milhares de quilómetros de distância, em Mocímboa da Praia, os jihadistas entraram como quiseram e saíram por sua própria vontade sem que as forças de defesa de Moçambique tivessem feito seja o que for para expulsar esses malfeitores.

Lei do Corão

Dois anos e meio depois dos jovens radicalizados numa mesquita de Mocímboa da Praia terem começado a espalhar o terror por Cabo Delgado, atacando e incendiando aldeias, matando mais de 700 pessoas, de acordo com os Médicos Sem Fronteiras, e obrigando a muita gente amedrontada a abandonar as suas casas e machambas (terrenos de cultivo) e a procurar refúgio noutras zonas (segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, já são mais de 100 mil os deslocados), a sua luta parece ter assumido uma dimensão mais desafiadora.

Agora são capitais de distrito, ataques directos a comandos da polícia dentro do perímetro urbano, com vídeos das suas façanhas e reivindicação do ataque pelo próprio Daesh através da sua agência oficial de notícias, a Amaq. E, sobretudo, um vídeo, onde se defende a implantação da “lei do Corão” e a retirada da bandeira da Frelimo – o que num país que foi de partido único e que mesmo multipartidário continua a só conhecer um partido no poder é muito importante.

Numa mensagem destinada a correr mundo, enviada para aqueles que “estão a assistir aí fora”, o aparente porta-voz dos jihadistas, de rosto tapado, junto a outro insurgente igualmente disfarçado, começa por dizer que estão em Quissanga – Gerson Malute refere que o edifício que aparece nas costas dos dois homens, filmados em cima de um muro, é a residência do administrador distrital – antes de apelar a todos para que venham “lutar sob esta bandeira”, a bandeira do jihadismo.

O homem de camuflado, fortemente armado, correias de munições cruzadas no peito, uma pasta de couro preta a tiracolo e o estandarte negro na mão, num português titubeante (nota-se que não é a sua língua quotidiana), pautado por expressões em árabe saídas directamente dos ensinamentos corânicos, defende a palavra de Alá como única lei e procura captar adeptos para a causa.

“Nós irmão, não pode ficar enganado, nós não estamos a lutar pela riqueza do mundo”, mas em nome de Alá, explica. “Quando você, na verdade, quer ficar islâmico, primeiro tem de morrer quando está a lutar sob a luta de Alá”, explica numa referência ao martírio para o qual se tem de estar preparado para ser um jihadista.

O vídeo está feito como material de propaganda, destinado a atrair mais jovens da província para a causa nobre da luta islâmica. Relatos de Mocímboa da Praia dizem que nas últimas semanas, 43 homens marcharam da cidade para se entregar à causa dos jihadistas. Os vários grupos, que não se sabe se terão um comando único ou funcionarão como células autónomas, podem já ter mais de três mil combatentes, embora o número exacto seja difícil de comprovar.

Numa província com pouco mais de 2,5 milhões de habitantes, “mais ou menos dividida ao meio entre católicos e muçulmanos que sempre se deram bem”, como explica ao PÚBLICO o especialista em Estudos Africanos Fernando Jorge Cardoso, o avanço do jihadismo e o protagonismo da sua luta pode pôr em causa o equilíbrio e “a cooperação entre a Igreja Católica em Cabo Delgado e o Conselho Islâmico de Moçambique – uma tradição que vem de há muito tempo e foi reforçada no tempo em que D. Manuel Vieira Pinto foi bispo de Nampula nos anos 1960”.

Fernando Jorge Cardoso sublinha que “ninguém no país está de acordo” com a possibilidade de “instauração de um Islão radical em Moçambique, que é o que estes grupos pretendem”, e o próprio Conselho Islâmico do país vê com maus olhos esta luta radical em nome de Alá.

Gerson Malute diz que para os católicos de Cabo Delgado ainda “é difícil responder” se este islamismo militante lhes pode trazer problemas: “Na ronda de destruição das instituições ou instalações, os insurgentes não destruíram igrejas, nem universidades, logo, acredito que as motivações sejam outras.”

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