expresso.ptexpresso.pt - 26 mar 10:05

Kosovo junta crise política à crise sanitária

Kosovo junta crise política à crise sanitária

Desacordo entre parceiros de coligação dita queda de Governo. Estratégia contra o coronavírus é um dos motivos para a crise, que radica na questão mais profunda do país: as relações com a vizinha Sérvia, de que o Kosovo já foi província

O Governo do Kosovo caiu após 50 dias no poder, por desentendimento entre os partidos que o compõem. Na raiz da crise política estão a pandemia do coronavírus e divergências sobre as relações com a vizinha Sérvia.

O primeiro-ministro Albin Kurti, do Movimento de Autodeterminação (VV, centro-esquerda), foi derrubado no Parlamento por uma moção de censura proposta pelo que era até agora o seu parceiro de coligação, a Liga Democrática do Kosovo (LDK, centro-direita).

Kurti tem agora duas semanas para tentar formar novo Executivo. Não parece fácil, mas realizar eleições no presente contexto é impossível, pelo que o país pode ficar com um Governo de gestão por muito tempo.

O desentendimento surgiu na semana passada, quando Kurti demitiu o ministro do Interior, Agim Veliu (LDK), por discordar da sua estratégia para conter a propagação do coronavírus. Veliu queria declarar o estado de emergência, que Kurti rejeitava. A LDK acusou o chefe do Governo de ter tomado tal decisão sem consulta prévia. O mandato de Kurti durou menos do que os quatro meses que levou a negociar a aliança entre os dois partidos após as eleições de outubro passado.

População protesta contra quezílias políticas

No Kosovo há 71 casos confirmados de covid-19, um deles fatal. Nos últimos dias houve protestos de cidadãos para quem as quezílias políticas entre Kurti, Isa Mustafa (líder da LDK) e o Presidente Hashim Thaçi (do Partido Democrático) são incompreensíveis quando a saúde da população está em perigo.

Durante a sessão parlamentar, um espontâneo surgiu diante do Parlamento, violando a ordem de confinamento, para exibir uma tarja com a inscrição: “A pandemia mais perigosa do Kosovo é a classe política. São uma vergonha!” Outros, sem poderem manifestar-se nas ruas, expressaram o seu descontentamento nas varandas de várias cidades, batendo em panelas e soprando em apitos.

Um debate de 12 horas no Parlamento kosovar saldou-se por 82 votos a favor da moção de censura, 32 contra e uma abstenção. A agência alemã DPA conta que a maioria dos deputados utilizava máscaras no hemiciclo. A sessão foi autorizada após avaliação de risco por uma comissão parlamentar.

EUA e UE querem pazes com a Sérvia

A crise terá, no entanto, motivações mais profundas. O VV é mais belicoso em relação à vizinha Sérvia (país de que o Kosovo fez parte até proclamar a independência em 2008) do que a LDK e o PDK do Presidente Thaçi. Kurti tem alegado que este último – a quem chama “motor nos bastidores” – quer negociar trocas de território com a Sérvia.

Nas legislativas de 2019 houve grande fragmentação de votos entre VV (26,3%), LDK (24,6%) e PDK (21,2%), partidos que já encabeçaram governos nos últimos 12 anos.

O chefe de Estado é um antigo guerrilheiro da luta pela independência e chefiou o Governo entre 2008 e 2014. Kurti acusa Thaçi de ter um acordo com o Presidente sérvio Aleksandar Vucic, mediado pelos americanos, para alterar a fronteira entre os dois países. O primeiro-ministro está contra. O mandato presidencial dura até 2021.

A LDK também não gostou que Kurti insistisse em manter sanções económicas contra a Sérvia, apesar de pedido nesse sentido vindo dos Estados Unidos da América e da União Europeia, principais aliados internacionais do Kosovo. O líder da LDK, Isa Mustafa, defende esse suavizar de relações, que promoveu quando foi primeiro-ministro (2014 e 2017) e que o Executivo seguinte, da Aliança para o Futuro (muito ligada à étnica albanesa), inverteu.

Desde a intervenção da NATO em 1999 (após dura repressão sérvia de rebelião pela maioria étnica albanesa da população kosovar), o Kosovo foi na prática um protetorado internacional, até se declarar soberano em 2008. Dos 193 membros das Nações Unidas, 115 reconhecem essa soberania, incluindo Portugal. Entre os que não a reconhecem estão nações como Rússia, China, Brasil, Espanha, Israel, além, evidentemente, da Sérvia.

A queda de Kurti agradou a Washington, cujo embaixador em Pristina, Phillip Kosnett, celebrou a moção de censura na rede social Twitter. Já a Alemanha e a França criticaram a iniciativa e pediram “unidade política” devido à pandemia de covid-19. “O Kosovo precisa de um Governo estável e plenamente operacional para lidar com esta crise”, escreveram os embaixadores de Berlim e Paris num comunicado conjunto que recomendava o adiamento da moção de censura.

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