expresso.ptexpresso.pt - 25 mar 20:00

Covid-19. “Fiquem em casa ou esperem represálias”: traficantes das favelas do Rio de Janeiro dizem estar a fazer o que o governo não faz

Covid-19. “Fiquem em casa ou esperem represálias”: traficantes das favelas do Rio de Janeiro dizem estar a fazer o que o governo não faz

Em várias favelas do Rio de Janeiro, zonas onde a concentração de pessoas é muito elevada e quase ninguém dispõe de cuidados de saúde suficientes nem de fundos extra para a sua higiene, os traficantes de droga estão a avisar que a ordem é para ficar em casa depois das 20h00. Sem exceções

Os gangues de tráfico de droga de algumas das mais conhecidas favelas do Rio de Janeiro estão a pedir aos residentes que fiquem em casa depois das 8 da noite e que antes disso só saiam para o necessário. Melhor do que “pedir”, estão a exigir o recolher obrigatório durante a noite para evitar a propagação de casos de coronavírus.

Em várias comunidades, como na Rocinha, Cidade de Deus e Rio das Pedras, há cartazes espalhados onde se leem ordens para os habitantes não saírem de casa, como conta a revista VEJA, que esteve em reportagem em várias favelas este fim-de-semana.

“Pessoal, fica em casa. A coisa está ficando séria e tem gente que tá levando na brincadeira. Os corruptos de Brasília falaram para não sair mais (sic) tem um povinho se fazendo de surdo. Agora voc��s vão ficar em casa por bem ou por mal. Toc (sic) de recolher todos os dias a partir das 20h00. Quem for pego na rua vai aprender como respeitar o próximo. Queremos o melhor para a população. Se o governo não tem capacidade de dar um jeito, o crime organizado resolve”, diz o aviso na Rocinha, distribuído em mensagens escritas para os telemóveis dos moradores.

O jornal “The Guardian” também visitou alguns destes locais onde os gangues estão, mesmo se sob ameaça de violência, a manter as pessoas em casa, coisa que o governo do Presidente Jair Bolsonaro já deixou de pedir. No Morro dos Prazeres, os gangues disseram à população para não se juntar em grupos de mais de dois. “Os criminosos já disseram a toda a gente que depois das 20h30 ninguém pode sair de casa ou vai haver represálias. Eu vou ficar em casa com a minha garrafa de gel desinfectante”, disse um dos residentes, sem dar o nome.

À VEJA, e também sob anonimato porque não convém criticar a autoridade de facto, um morador disse que sem poder sair de casa a vida ainda ia ficar mais complicada. “Estamos tentando levar uma vida normal, mas está muito difícil. Sem trabalho, não há dinheiro. E agora não podemos mais sair de casa à noite”, revelou um morador da Cidade de Deus à VEJA.

Em Santa Marta, perto do imponente Cristo Redentor, os traficantes têm distribuído sabão, desinfetante e outros materiais de limpeza. Na entrada da favela colocaram um sinal que diz: “Por favor lavem as mãos antes de entrarem na favela”. Mas logo surgiram vozes a contestar a utilidade desta medida. Um outro residente ouvido pelo diário britânico diz que “no topo do morro às vezes não chega água durante quinze dias e se as pessoas não conseguem sequer ter dinheiro para comer como é que podem preocupar-se com limpeza?”. Assim fica difícil fazer o que mandam as “autoridades locais”.

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