www.jornaldenegocios.ptPedro Santana Lopes - 25 mar 20:24

Gravidade e continuidade

Gravidade e continuidade

É por todos e por cada um que tem de haver sempre o devido equilíbrio entre a consciência da gravidade da situação e a consciência da necessidade da continuação. - Opinião , Jornal de Negócios.

Têm sido muito referidas, como é obvio, duas dimensões cimeiras desta grave crise: a da saúde e a económica. O que tem sido avançado sobre as medidas em curso na área da saúde, nomeadamente as aquisições que estão a ser feitas, correspondem, no geral, ao que se impunha. Chegam, no entanto, relatos de vários pontos do país e das respetivas unidades de saúde, sobre carências de recursos básicos, entre material clínico e outros mais comuns.

Obviamente que essa carência muito generalizada também tem de ser atendida para que os profissionais de saúde possam ter o mínimo indispensável para o seu trabalho. Impunha-se adquirir máscaras, impunha-se adquirir outros equipamentos de proteção, impunha-se adquirir ventiladores. Mas importa também que esteja assegurado aquilo que podemos chamar de pré-básico e que muitas vezes são roupas para as camas ou para as pessoas, e outro tipo de bens que se julgava nunca faltar. A outra dimensão, a económica, que deve ser constantemente entrelaçada com a dimensão social, tem merecido também o anúncio ou pré-anúncio de medidas várias. Temos muitos o saber, de experiência feito para não termos dúvidas de que é muito difícil às micro e pequenas empresas terem acesso a esses apoios. Mais ou menos burocracia, mais ou menos requisitos irrealistas, mais ou menos desconhecimento das realidades práticas, levam a que os mais pequenos, empresários em nome individual ou unidades empresariais de muito pequena dimensão, só muito dificilmente possam beneficiar desses apoios excecionais. É bom ter presente que essas unidades e esses empresários, com os respetivos trabalhadores, são dos mais atingidos pelo facto de vivermos em estado de emergência. Tudo o que já foi suspenso ou que está encerrado nestas semanas deste primeiro mês de forte contenção, leva a problemas drásticos de tesouraria, nomeadamente para o pagamento de salários e para o pagamento a fornecedores essenciais.

Sabemos que estão anunciadas as medidas de “lay-off”, sabemos que há outros apoios para empresas que não façam despedimentos, mas é essencial, nestes dois meses que se anunciam como os mais duros, aprovar medidas muito práticas para essa realidade que é a esmagadora maioria do tecido empresarial português.

Acima de tudo, é preciso seguir em diante, na capacidade de projetar, de iniciar, de realizar e, portanto, de desenvolver.

Outros temas importa ir trabalhando como, por exemplo, a disponibilização de terrenos por parte das autarquias das grandes urbes, para construção de habitações num quadro financeiro e fiscal vantajoso, que permita em parte vender, e em parte arrendar, fogos a preços que estejam a alcance das famílias de médio ou baixo rendimento. É importante do ponto de vista social e também o é para a dinamização da atividade económica e do emprego. Sabemos como muitas empresas nestes últimos anos nasceram, viveram e em muitos casos cresceram a trabalhar para reconstrução/reabilitação de casas e apetrechamento/decoração dos respetivos interiores.

Acima de tudo, é preciso seguir em diante, na capacidade de projetar, de iniciar, de realizar e, portanto, de desenvolver. Há muitos portugueses que estão a trabalhar porque têm de o fazer para assegurar o rendimento das suas famílias. Têm sido, e muitos bem, destacados os profissionais de saúde e os profissionais de outros setores essenciais ao funcionamento da sociedade. Mas há muitos portugueses que têm de trabalhar na sua oficina, no seu estaleiro, na sua obra, na sua empresa, porque não podem fazer teletrabalho e precisam de garantir o dinheiro ao fim do mês.

É por todos e por cada um que tem de haver sempre o devido equilíbrio entre a consciência da gravidade da situação e a consciência da necessidade da continuação.

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