expresso.ptGonçalo M. Tavares - 25 mar 07:10

Diário da Peste. Sente-se aborrecido/a?

Diário da Peste. Sente-se aborrecido/a?

Opinião de Gonçalo M. Tavares

Diário da Peste,
24 de Março 2020

“Sente-se aborrecido/a? Estas são as músicas que o vão fazer dançar em tempos de epidemia.”
Morreu ontem Kenny Rogers.
Morreu hoje Uderzo de paragem cardíaca.
“Favelas do Rio de Janeiro sem recursos básicos para enfrentar coronavírus”.
“O que nos dizem os astros em tempo de pandemia”.
Lembro-me de Astérix legionário.
Obélix insistia: para ele, o tamanho médio de uniforme militar.
Médio, ir pelo caminho do meio.
As pessoas na rua vão pelo caminho do meio.
Afastados dos carros, das paredes.
O caminho do meio, tentar não tocar em nada.
Em Telavive e Jerusalém apareceram as cores da bandeira italiana.
Em Toronto apareceram as cores bandeira italiana.
No Rio de Janeiro, Cristo Redentor, apareceram as cores da bandeira italiana.
Calçar sapatos de manhã para se fingir que se vai andar.
Médica de bata, dentro do hospital, fala por meio de um altifalante para dar ânimo aos colegas.
Rodeada de macas, doentes e médicos.
Põe o hino italiano a tocar.
Itália está orgulhosa de vós!
Grita a médica de bata e máscara.
Como um treinador de futebol - mas a meio de uma tragédia, não de um jogo.
Drones em paris dizem às pessoas para irem para casa.
Angela Merkel entra em quarentena depois de contactar com um médico infectado.
Trump diz que a verdadeira energia americana não lhes permite ficar em casa.
A Ford, em vez de carros, produz máquinas para a medicina urgente.
Em vez de máquinas para a velocidade, máquinas para a salvação.
Imaginar o motor de um carro junto à cama de um doente.
Dois mundos incompatíveis.
Uma velocidade que não é pedida.
Um motor errado.
Não preciso dessa velocidade, diz um doente.
Tenho um casaco preto, fecho de correr até cima, protejo a garganta.
Ao fundo, um limoeiro que insiste, amarelo, frutos amargos.
O amarelo deveria ser protegido.
As cores alegres protegidas pela Constituição.
É preciso endireitar a cama, fingir que se saiu durante o dia para muito longe.
A cama não entende que a enganamos.
Estamos o dia todo ali perto, a uns metros.
Enganar a mobília, a porta.
Fingir que se sai, abrir e fechar a porta.
Porta ingénua, acredita em tudo.
Na China o Estado controla a temperatura de cada cidadão.
Mais de trinta e sete graus: cidadão perigoso.
A traição saiu da linguagem, entrou na biologia.
Estar doente é uma ameaça ao Estado.
Todo o doente fica de imediato estrangeiro.
Se és saudável és da minha nação; se estás doente falas outra língua.
A língua dos saudáveis, a língua dos doentes.
No limite, fuzilar os doentes por traição.
Os critérios mudam, o Direito muda.
Um presidente de câmara italiano junta as mãos a pedir para as pessoas não saírem de casa.
Parece rezar, pedir piedade e dar uma ordem - tudo ao mesmo tempo.
Um médico italiano diz que não entende por que vão cabeleireiras a casa das senhoras arranjar-lhes os cabelos.
Diz que os caixões vão fechados, que ninguém vai ver os cabelos delas penteados.
Diz isto de uma forma violenta.
Fico calado.
E continuo calado.

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