www.jornaldenegocios.ptFrancisco Mendes da Silva - 25 mar 09:45

Chegou o pragmatismo. Abram alas

Chegou o pragmatismo. Abram alas

Espero que o regresso à normalidade seja rápido. Que voltemos à proximidade social, à gritaria democrática, ao debate desbragado. Mas também não me importava que por causa deste período de excepção pudéssemos no futuro dar um pouco mais de crédito intelectual ao pragmatismo. - Opinião , Jornal de Negócios.

1. Eis um pequeno cardápio das ideias políticas hoje em voga no Ocidente: regresso de fronteiras, imposição de recolhimento domiciliário generalizado, controlo dos movimentos das pessoas pelas autoridades armadas, suspensão da cobrança de impostos, dinheiro "de helicóptero", toda a economia parada por ordem do Estado e sob aplauso dos cidadãos. Nada disto era previsível no mês passado. Hoje é o pão nosso de cada dia. Impressionante.

De um dia para o outro acordámos numa civilização política surreal, onírica, quase distópica, tão estranha quanto a moribunda paisagem das nossas cidades vazias, que aceitámos com a mesma naturalidade com que espreitamos lá fora a chegada lenta, previsível e burocrática da Primavera.

Estes são tempos inexplicáveis para quem vê a política como uma batalha eterna entre ideias inconciliáveis, e para quem a pratica como a busca da pureza ideológica. O coronavírus não se limitou a colocar de quarentena as pessoas, as empresas e as economias. Também as ideologias tiveram de recolher aos quartéis. A não ser, pelos vistos, uma certa "ideologia" anti-ideológica, talvez conservadora, que mora nos pesadelos de alguns cultores mais inflamados das ideias políticas: o pragmatismo.

O consenso que se vai formando por todo o mundo sobre o sentido das políticas de combate à ameaça sanitária e económica é uma boa medida da gravidade da própria ameaça. Independentemente da intensidade e do ritmo com que cada país se pode comprometer a fazer o que é preciso fazer, é bastante assustador que as diferenças políticas se tenham temporariamente dissipado, que as oposições se tenham praticamente anulado e que os governos, sempre prontos a justificar as suas acções com base em grandiloquentes profissões de fé ideológicas, tenham adoptado como credo único o de "fazer o que é preciso fazer". Mas as coisas são como são (outro princípio pragmático): quanto mais assustadores os problemas, menos assustadoras as soluções.

Espero que o regresso à normalidade seja rápido. Que voltemos à proximidade social, à gritaria democrática, ao debate desbragado. Mas também não me importava que por causa deste período de excepção pudéssemos no futuro dar um pouco mais de crédito intelectual ao pragmatismo.

Ao contrário da caricatura, o pragmatismo não é um lugar vago, imune a ideias e a valores. É uma postura de quem percebe que os problemas políticos são infinitamente complexos, que todos podemos ter algo de relevante a dizer sobre eles, que é só assim que os resolvemos. E que governar, nas sociedades liberais e segundo o método democrático, é um equilíbrio constante, sempre instável e insuficiente, destinado a ser exercido por quem tem a noção de que não há quem tenha toda a razão sobre tudo. O pragmatismo não é a ausência de política; é a essência da política.

2. No início da resposta à crise, o Governo não esteve feliz. A ministra da Saúde e a Directora-Geral de Saúde formavam uma dupla titubeante, que não transmitia nem serenidade nem autoridade. Em boa hora foram substituídas na liderança da batalha comunicacional.

Quem temos agora? António Costa, Pedro Siza Vieira, Mariana Vieira da Silva, Augusto Santos Silva. Os mais ideológicos, a começar pelos tanques do "pedronunismo", nem se vislumbram (e ainda por cima a sua Némesis, Fernando Medina, ocupa quotidianamente o serão televisivo dos portugueses).

Goste-se muito ou pouco deste Governo (eu não sou fã), uma coisa é certa: quem está ao comando do combate à crise são os seus pragmáticos. Foi sorte? Assim calhou, por causa das pastas relevantes? Porventura sim. Mas, no meio de tudo o que é mau, valha-nos ao menos isso.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

Advogado

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