www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 25 mar 20:08

Dar Tempo ao Tempo

Dar Tempo ao Tempo

É este um tempo em que uns passam a ter o tempo que ao longo dos tempos foram desejando ter? Ou será este um tempo em que, para outros, há tudo menos tempo? É este um tempo em que todo o tempo conta para que ainda possa salvar-se algum tempo? Ou um tempo em que já não há tempo? - Opinião , Sábado.

Tempo.

O que é o tempo?

"Eu sei o que é o tempo, mas assim que me perguntas deixo de o saber", respondeu-me, sabiamente, Santo Agostinho.

Pergunto, então, que tempo é este?

É este um tempo em que uns passam a ter o tempo que ao longo dos tempos foram desejando ter? Ou será este um tempo em que, para outros, há tudo menos tempo? É este um tempo em que todo o tempo conta para que ainda possa salvar-se algum tempo? Ou um tempo em que já não há tempo?

Talvez este seja um tempo em que todos estes tempos façam parte dos nossos tempos. E talvez este seja também um tempo em que o tempo é, afinal, o que sempre foi.

Por ventura (que não por André, que desse, espero, o tempo se encarregará), a perceção que temos do tempo, do nosso tempo, dos nossos tempos, é que pode ter mudado. Uma mudança individual, uma mudança interior, na medida em que o nosso mundo interior talvez não seja mais do que uma representação do mundo exterior. Por isso, todos aqueles tempos – os retidos no tempo que foi o do parágrafo mais acima – são contemporâneos, embora vividos em mundos interiores diferentes.

Olhemos para aqueles cujo tempo parece ter ganho algum tempo. Para aqueles, que fruto da emergência de um estado, se viram confinados a um espaço em que o tempo aumentou. O mesmo é dizer, olhemos para aqueles que pararam. E aceitemos que o simples facto de terem parado ampliou o seu tempo ["um objeto em movimento experimenta, portanto, uma duração menor que um objeto parado" (Carlo Rovelli 2017)]. E voltemos a perguntar: que tempo é este?

Será este um tempo de "reaprender a escutar. Escutar o silêncio, o espaço entre as palavras, a calma na tempestade e a passagem do tempo, reaprender a apreciar: o sabor de um instante, o fumegar de um prato, a espuma dos dias e o calor do fogo. Reaprender a sentir: o contacto das mãos, um coração que bate. O espaço que se abre e o tempo que se detém … Um programa vasto!" (Kankyo Tannier, 2017).

Será um tempo para escolher "de entre a variedade de comportamentos sociais disponíveis"? "A pertença a um grupo, a amizade, o carinho, o amor, (…) diretamente associados ao bem-estar dos outros, mas também ao bem-estar próprio" (António Damásio, 2017).

Parece, então, ser também este um tempo, nomeadamente para aqueles que hoje convidámos para esta quarta-feira - aqueles cujo tempo parece ter ganho algum tempo – em que a modalidade lenta do sistema nervoso recuperou a sua forma de ser. Refiro-me à modalidade, de ritmo lento, "própria dos animais superiores" que "está particularmente desenvolvida no caso do Homem", aquela que "é inerente ao controlo do indivíduo sobre a sua vida, isto é, lá onde o contexto o torna possível, é inerente às suas escolhas no uso do tempo à disposição e ao seu relacionamento com os outros Homens, com os outros organismos e com o ambiente que o rodeia" (Lamberto Maffei, 2014).

É sabido que esta coluna a que estamos, aqui, os dois, a dedicar o nosso tempo, embora em tempos diferentes, fala, amiúde, sobre coaching. E o que me ocorre neste momento, neste momento presente, que é, em si, o meu tempo, é que o grande ganho, a que tenho assistido em lugar privilegiado, que os clientes de coaching manifestam é, precisamente, o ganho de tempo.

O coaching é, em si, um momento de paragem em que o cliente se oferece um momento para si. Muitas vezes, o único momento em que se permite pensar. Pensar-se. Aproveitar um ambiente seguro e protegido para subir a um ponto de vista onde possa observar. Observar-se. Reclamar para si um espaço, um lugar onde possa projetar. Projetar-se. Caminhar, acompanhado, para um estado de presença plena, um estado essencial ao controlo sobre a sua vida, as suas escolhas, o uso do tempo à sua disposição, e sobre a forma de se relacionar com os outros Homens. De uma forma geral, escolher o que quer fazer com o seu tempo, ganhando, assim, tempo.

É neste tempo que cada um de nós decide oferecer-se a si próprio que definimos os nossos objetivos, as nossas metas, o que nos dá prazer. Que decidimos a vida que somos. Que decidimos o tempo que escolhemos ser.

"O tempo, portanto, é isto: existe inteiramente no presente, na nossa mente, como memória e como antecipação" (Maffei).

Talvez seja chegada a hora de darmos tempo ao tempo.

João Laborinho Lúcio – Coach, membro da International Coaching Federation

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