www.dinheirovivo.ptDavid Braga Malta - 25 mar 09:50

Economia de pandemia: reforçar a capacidade de produção no sector da saúde!

Economia de pandemia: reforçar a capacidade de produção no sector da saúde!

É preciso minimizar os impactos económicos e promover um aumento de produção dos principais fornecedores do sistema de saúde

Esta pandemia não é uma guerra, mas há claras lições que podemos tirar da economia de guerra e ser estratégicos nas decisões que tomamos, para responder às necessidades que o combate à pandemia impõe. Devemos fazer isso tentando minimizar os impactos económicos para manter a capacidade industrial no país e assim potenciar o relançamento económico.

A pandemia coloca o sistema de saúde sob pressão porque acrescenta um enorme número de casos aos casos que normalmente ocorreriam. Isto implica um esforço sobre humano dos profissionais de saúde, mas também um necessário aumento de produção dos principais fornecedores do sistema de saúde.

As empresas do sector farmacêutico e do dispositivo médico estão a fazer um esforço incrível para aumentarem a capacidade de produção e assim responder ao consumo acrescido de medicamentos e dispositivos médicos que esta crise sanitária necessita. É fundamental que assim seja. Todos estes trabalhadores merecem a nossa maior gratidão eterna, vão trabalhar todos os dias numa situação em que a maioria dos Portugueses pode ficar em casa. Todos estes empresários mostram uma resiliência face ao desafio que deverá ser recordado em memória coletiva por várias gerações.

Este esforço, face à capacidade instalada limitada que temos, pode não ser suficiente. Muitas empresas de outros sectores terão capacidade tecnológica e de mão-de-obra para responderem a necessidades prementes do nosso sistema de saúde. Contudo a maioria dos produtos comuns de uso hospitalar são na realidade dispositivos médicos e como tal requerem uma qualificação adicional que garante que são seguros e eficazes – a marcação CE. Não podemos atalhar caminho aqui, não queremos que as pessoas afinal tenham uma máscara que não os protege ou que um teste de diagnóstico não meça realmente a infecção. Mas certamente podemos ser assertivos e eficazes neste processo. Se o formos estamos a suprir uma necessidade básica imediata e a manter emprego e capacidade. Isto representa um efeito imediato na manutenção do rendimento das famílias e de médio prazo na manutenção da capacidade industrial instalada para o relançamento económico após a crise sanitária.

Infelizmente em Portugal não temos nenhum organismo notificado e embora em situação normal não seja minimamente problemático ou alarmante, nesta altura de crise sanitária poderá ser útil que o tenhamos. Os organismos notificados são os agentes responsáveis por certificarem, não só os sistemas de qualidade das empresas para que estas possam produzir sob marcação CE, mas também os produtos no final. O Infarmed já foi um organismo notificado e durante este período de exceção deve voltar a sê-lo! Com o Infarmed como organismo notificado podemos fazer duas coisas que podem ser fundamentais para utilizar a capacidade das empresas e manter emprego respondendo às necessidades do sistema de saúde. A primeira é ajudar empresas a obter a certificação ISO necessária à produção de dispositivos médicos (ISO 13485), a segunda é permitir que empresas trabalhem sob a certificação de outras que já a têm, garantindo que estas cumprem os requisitos legais.

Isto permite garantir a qualidade dos produtos e dar conforto a empresas que tenham já a autorização para a produção de dispositivos médicos a alargarem a terceiros. Isto claro, sem receio de estarem a assumir sob sua alçada produtos que não cumprem os requisitos legais. Cabe rapidamente ao Infarmed organizar-se e voltar a ter esta competência interna.

Se olharmos para alguns produtos com maior consumo hospitalar neste momento vemos claramente que é possível que algumas das nossas empresas adaptem as suas linhas de produção para o fazer:

– produtos para a desinfeção pessoal e de espaços onde a indústria da dermocosmética ou parte da indústria de bebidas têm a capacidade e tecnologia necessárias;

– equipamentos de proteção individual onde parte da indústria têxtil desde que tenha acesso aos tecidos adequados terá a capacidade de produção;

– zaragatoas para diagnóstico onde a indústria dos plásticos terá certamente a capacidade de alterar linhas de produção para as produzir;

– luvas e equipamentos de proteção facial como viseiras ou óculos, onde certamente temos capacidade instalada;

– ventiladores onde a indústria dos componentes automóveis e eletrónicos têm o conhecimento e a competência técnica;

– quartos de isolamento portáteis podem ser desenhados e construídos em conjunto pela construção especializada em acrílicos e estufas, e empresas de climatização;

– macas e camas articuladas para hospitais de campanha onde a idústria metalomecânica será capaz de responder de imediato em conjunto com os produtores de colchões.

Muitos destes produtos podem requerer a interação com outros sectores, por exemplo podem necessitar de esterilização final. Algumas das nossas universidades terão esta capacidade, o Técnico por exemplo tem capacidade para radio esterilização e certamente será um parceiro disponível.

Sem querer parecer simplista nesta análise, mas sabendo que o estou a ser, porque sei bem a dificuldade que é implementar sistemas de qualidade, que muitas vezes podem requerer adaptações físicas às instalações e forte treino dos colaboradores, sei também que existem as competências em Portugal para o fazer. A bem da nossa saúde e da nossa economia é bom que o façamos já.

Este momento deve fazer-nos a todos pensar no longo prazo. Ter um tecido económico resiliente implica ter um tecido económico flexível com capacidade de rapidamente se adaptar. Isto permitirá manter a capacidade instalada e contribuirmos de forma decisiva para a manutenção do rendimento coletivo e para o relançamento económico.

Em Portugal investimentos privados de longo prazo quase não existem, o capital quer retorno rápido e foge do sector da saúde, não é um sector considerado estratégico, queremos que ele exista e seja óptimo, mas não queremos investir. Esperemos que este momento nos faça repensar esta estratégia.

David Braga Malta, PhD, Venture Partner Vesalius Biocapital e CEO LiMM Therapeutics

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