eco.sapo.pteco.sapo.pt - 25 mar 21:20

Europa vai liderar falências empresariais em 2020

Europa vai liderar falências empresariais em 2020

As falências de empresas aumentam em 2020 com maior incidência na Europa, previne a Euler Hermes. Em relatório conjunto com a Allianz, antecipa que a pandemia durará, pelo menos, até junho.

O aumento de falências ocorrerá a uma escala internacional, antevê a Euler Hermes, seguradora global de crédito acionista da portuguesa Cosec. A companhia francesa estima que, em termos globais, os casos de insolvência registarão um acréscimo de 14% este ano, prevendo ainda que as fragilidades acumuladas pelas empresas ao longo do período da pandemia impossibilitem, depois, o cumprimento de responsabilidades adiadas.

Particularizando o caso da economia francesa, a Euler Hermes refere um acréscimo de 8% em número de falências empresariais “uma inversão notável” interrompendo um ciclo de quatro anos consecutivos de declínio no indicador. No início de janeiro, outro relatório da seguradora antecipava que França seria uma das exceções positivas no cenário global de insolvências, com variação nula em fenómenos desta natureza, apenas precedida pelo Brasil, onde as falências teriam decréscimo superior a 3%.

“A tesouraria das empresas francesas já estava enfraquecida antes da epidemia de Covid-19. As medidas estatais devem permitir evitar uma crise de liquidez a curto prazo, mas os reembolsos futuros serão difíceis de efetuar para algumas empresas francesas devido à sua fragilidade anterior. Esperamos, portanto, um forte aumento das insolvências na França este ano”, explica Eric Lenoir, presidente executivo da Euler Hermes France.

Questionando se a alteração de tendência em França será apenas consequência direta do choque global que o mundo atravessa (o ambiente político-social em França já apresentava sinais de instabilidade e incerteza), a instituição líder mundial nos seguros de crédito aponta os blocos que geram agora maior preocupação em incremento de falências: Europa (+16% de insolvências em 2020), China (+15%) e EUA (+8%).

Aumento percentual das falências por blocos económicos

Fonte: Euler Hermes-março 2020

No seu «Global Insolvency Report» para 2020, publicado no início de janeiro e cobrindo 44 países, a Euler Hermes antecipava que as falências cresceriam em quatro de cada 5 países este ano, mantendo-se o incremental dos anos anteriores, depois de terem aumentado 9% em 2019. No documento de há dois meses previa-se subida mundial de 6%, com destaque para Ásia (+20% em 2019) e a Europa ocidental (+2% em 2019).

O cenário que sustentava estas projeções identificava os riscos de maior peso para créditos à exportação: o ritmo lento de crescimento da economia, em particular nos blocos mais industrializados; efeitos de disputas comerciais; incerteza política e tensões sociais. A juntar a estes fatores, a tendência de falências seria ainda potenciada por concorrência acrescida na função preço e subida nos custos de produção, em particular em salários.

Porém, num par de meses, tudo mudou e para pior.

Quarentenas ditam recessão profunda com covid-19 a resistir até junho

Ora, por causa da crise económica e sanitária (pandemia covid-19) que coloca as empresas sob “pressão intensa”, a Euler Hermes assume cenário macroeconómico revisto para este ano. Aprofundando os efeitos do vírus que parou o mundo, a seguradora remete para um relatório mais detalhado, que beneficia da contribuição de economistas e especialistas da Allianz. À luz dessa análise, a economia global crescerá apenas 0,8%, contra 2,5% em 2019, uma desaceleração mais forte do que já estimara antes da pandemia que está a afundar o comércio internacional.

O estudo “COVID-19: Quarantined Economics”, elaborado em conjunto com a Allianz Research, refere que cada mês de confinamento na União Europeia, China e Estados Unidos representa uma quebra estimada de 317 mil milhões de dólares no volume de exportações mundiais.

Cada trimestre de interrupção do comércio internacional custa 722 mil milhões de dólares, principalmente devido às medidas de contenção e restrições fronteiriças implementadas pela UE e pelos Estados Unidos, quantifica o relatório. Para a França, por exemplo, a Euler Hermes estima que a recessão represente um recuo de 1,3% no PIB, anulando o crescimento alcançado em 2019.

O cenário central assumido no estudo desenha a primeira metade de 2020 marcada por uma recessão acentuada na maioria dos países desenvolvidos e economias emergentes, esperando que, à depressão, suceda uma recuperação em ‘U’ no período seguinte. Mas o relatório deixa outro aviso: a retoma não será fácil em particular para os setores de retalho e turismo e para as empresas que já apresentavam fragilidades de balanço (endividadas e com escassez de capital) antes da catástrofe sanitária.

No cenário alternativo, de crise mais prolongada e recuperação mais lenta (12 a 18 meses), antecipam-se problemas agravados a nível de liquidez, eventos de crédito, stress nos mercados de capitais e de dívida. Com estas condições, a recessão económica prolongar-se-á até 2021.

A improvável mas real catástrofe sanitária está a empurrar a economia global para um quadro semelhante ao da crise financeira iniciada em 2008. Ao longo do relatório encontram-se referências à teoria dos ‘cisnes negros’, assume-se a inevitabilidade – mas também se questiona a eficácia – de medidas económicas típicas de situação de guerra com ‘milhões de empregos em risco’.

Os autores do estudo admitem que, tendo em conta a propagação da pandemia e a cronologia dos regimes de quarentena aplicados em Itália, França e Espanha (face a datas de igual procedimento na China), a pandemia global deverá prolongar-se, pelo menos, até junho.

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