www.jornaldenegocios.ptEdson Athayde - 24 mar 20:10

Somos folhas da mesma árvore

Somos folhas da mesma árvore

Chega a dar pena ver economistas a gritar que o mundo não pode parar mais do que duas semanas, que temos de rever isso aí, que há limites na defesa da vida das pessoas. Parafraseando Caetano Veloso, são ideias e prioridades fora de ordem nesta nova ordem mundial. - Opinião , Jornal de Negócios.

Alguns apontamentos do diário de um cronista que vive sozinho em casa, em tempos de quarentena:

1) Somos de uma espécie muito social. Sabemos, de uma forma quase instintiva, que precisamos estar juntos para sobreviver. Daí que, um pouco por todo o mundo, multiplicam-se vídeos com momentos de pessoas às janelas a cantar umas para outras, a desejar "Bom dia" coletivamente, a bater palmas de homenagem a quem ajuda e panelas contra quem atrapalha. Há um fio narrativo em tudo isto: "Nós estamos aqui", é a mensagem. "Somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore, flores do mesmo jardim.", podia ser lido numa faixa erguida por médicos chineses ao desembarcar na Itália a poucos dias. O meu Tio Olavo não diria melhor.

2) Há quem confunda autoritarismo com autoridade. Uma pessoa pode ser autoritária sem exercer nenhuma função de poder. Ao contrário, em democracia, a única forma de autoritários serem eleitos é a contar com o apoio de uma grande massa de subservientes também eles, cada um da sua maneira, autoritários. Ao assistir alguns debates na TV sobre a situação atual, é fácil detetar os autoritários de turno a ver o chão a fugir dos seus pés. Os ultraliberais estão em pânico, todas as suas teorias sobre a eficácia do estado mínimo e os benefícios da mão invisível do mercado deixaram de fazer qualquer sentido. Chega a dar pena ver economistas a gritar que o mundo não pode parar mais do que duas semanas, que temos de rever isso aí, que há limites na defesa da vida das pessoas. Parafraseando Caetano Veloso, são ideias e prioridades fora de ordem nesta nova ordem mundial.

3) Os negacionistas da ciência estão num momento complicado. Era divertido duvidar das vacinas até a lei da gravidade quando isto causava danos mínimos às suas vidas (salvo algumas exceções, os maiores danos era aos outros). Agora andam por aí tão confinados quanto nós, a espera que médicos e cientistas trabalhem para nos salvar a todos. Alguns poucos persistem no delírio, presidentes de países, inclusive. Cresceram no ambiente pantanoso das "fake news" e das teorias da conspiração. Creio que não terão um futuro radioso. Ao menos, não merecem ter.

4) Preocupante a situação do Brasil. Com o Bolsonaro sendo apontado como um dos governantes mais ineptos do mundo a tratar desta pandemia, o que mais assusta é o conjunto de narrativas cruzadas que confundem a sociedade. Como no caso da Inglaterra, vemos um país dividido entre mensagens muitas vezes contradit��rias. Vamos torcer para que o pior não aconteça.

 5) No começo do ano fui com todos os colaboradores da minha empresa assistir ao filme "1917". À saída do cinema conversámos sobre a importância de trabalharmos em equipa sem desprezar a atuação de individual. Num cenário de guerra, cada um tem que ser o herói da própria narrativa. Mas não podemos esquecer que a vitória será sempre obtida de forma coletiva. Guerras mundiais pareciam miragens do passado. Estávamos em janeiro e 2020 era uma criança a sorrir-nos com uma boca cheia dentes. 

Publicitário e Storyteller
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