www.dinheirovivo.ptCarlos Brito - 15 fev 08:29

Do desespero à esperança

Do desespero à esperança

Se alguma coisa houve foi trabalho bem feito, com boa organização, planeamento e liderança. E, principalmente, uma forte crença de ser possível mudar

Quero hoje falar de um país localizado numa península que fica no extremo do seu continente e que no início dos anos 60 era dos mais pobres do mundo. Sabe de qual estou a falar? Não, não me estou a referir a Portugal mas sim à Coreia – do Sul, para ser mais preciso.

Em 1960, o seu PIB per capita era cerca de 100 USD, ou seja, um quarto do português na mesma época. Nessa altura, o país tinha sido quase totalmente devastado por dois conflitos armados: a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coreia que não só o destruíram, mas também esta última o dividiu em dois espaços que tiveram evoluções totalmente distintas.

Hoje, a República da Coreia – vulgarmente designada por Coreia do Sul – possui uma das economias mais sólidas do planeta, assente em empresas de base industrial e forte presença global, como a Samsung, a Hyundai e a LG. Segundo o World Economic Forum, os dois principais pilares da competitividade da sua economia são, aliás, a estabilidade macroeconómica e o grau de inovação das empresas.

O título deste artigo é o nome de um livro publicado há uns anos sobre aquilo a que muita gente chama milagre coreano. Na realidade, o dito milagre nunca existiu. Se alguma coisa houve foi trabalho bem feito, com boa organização, planeamento e liderança. E, principalmente, uma forte crença de que é possível alterar radicalmente a trajetória rumo ao desenvolvimento.

Para um país como nosso – que se considera pequeno, embora, como já tive oportunidade de mostrar, seja tudo uma questão de perspetiva – vale a pena olhar para a Coreia. Não para copiarmos a receita, porque de facto não as há nesta matéria. E, mesmo que houvesse, os contextos geopolítico, social e cultural de Portugal e da Coreia são de tal forma distintos, que seria sempre abusivo dizer-se que “porque eles fizeram, nós também devemos fazer”.

Este caso não é único. Outros poderiam ter sido citados, a começar pela China ali mesmo ao lado. Une-nos, todavia, o facto de os nossos países se situarem em penínsulas localizadas no extremo dos respetivos continentes e de serem rodeados por vizinhos com uma dimensão bem maior. A nós, Portugueses, só nos falta tomar consciência de que ninguém é obrigado a carregar o fardo de ser “pequenino e pobrezinho” eternamente. E de que não há milagres: requer-se, isso sim, visão, estratégia e capacidade de execução.

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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