www.publico.ptpublico@publico.pt - 15 fev 06:10

Quando chegar a minha hora deixem-me morrer em paz

Quando chegar a minha hora deixem-me morrer em paz

Em resumo, o meu pedido é simples: quanto ao fim da minha vida, deixem as coisas acontecer com naturalidade e nada vos pesará na consciência. Quem morre assim, tem uma morte boa, já vi isso acontecer à minha volta, mas também já vi tentativas de pro

O pior que me podem fazer é quererem manter-me viva à força. Aviso já, não quero! Quero morrer sossegada quando tiver que ser e espero que não me andem a mudar de máquina em máquina e a fazer das tripas coração para me manterem a respirar e com batimento cardíaco.

Na morte, como no início da vida, não há modernices, as coisas são como têm que ser. Para uma coisa, como para outra, não vale a pena tentar fazer planos, “não sabemos o dia nem a hora”.

Sem saber como vai ser, espero que a minha morte seja assistida, por quem me pode ajudar e especialmente pelos meus, como recentemente aconteceu com a minha mãe, com todos os filhos e netos à volta, um desejo que desde sempre lhe ouvimos e que lhe foi concedido.

De acordo com as circunstâncias imprevisíveis que vierem a ditar o meu fim, deixo desde já uma lista do que não quero que aconteça:

1. Em caso de paragem cardíaca, não quero que me reanimem se não der resposta às primeiras tentativas e exceder o prazo razoável para que isso possa acontecer sem sequelas.

2. Se os meus órgãos começarem a falhar sem reconhecida margem para recuperação, não quero que me liguem a máquinas que os ponham a funcionar artificialmente.

3. Se os tratamentos deixarem de ter um efeito curativo, quero que o foco passe a ser em garantirem o meu bem-estar até ao fim e não em usarem o corpo vil desta paciente para procurarem resultados impossíveis.

4. Se, num acidente imprevisto, a minha morte estiver eminente, mas os meus órgãos estiverem em boas condições para ajudar outras vidas, aceito que me mantenham viva o tempo suficiente para poder, com a minha morte, salvar a vida de outra pessoa.

5. Não quero que me deixem sozinha a fazer tratamentos no hospital e, se me falharem os mais próximos, espero que haja na sociedade quem me possa dar a mão.

6. Não quero que olhem para mim de lado na rua ou no elevador só porque já estou velhinha, ando mais devagar e às vezes preciso de ajuda.

7. Vou detestar ter a sensação de que quem se cruza comigo tem o desejo secreto de que “vá desta para melhor”, para desocupar uma casa, deixar uma herança, ou simplesmente deixar de dar trabalho e gastar recursos.

8. Quero que me tratem com o mesmo amor e o mesmo respeito se vier a perder a minha identidade e mobilidade. Ninguém sabe o que está dentro das nossas cabeças e do nosso coração, seja o que for, o calor humano é vida e dá vida.

9. Se, por circunstâncias da vida, achar que estar viva deixou de fazer sentido, espero que os que estão à minha volta me dêem boas razões para me provar que estou enganada.

10. Não quero que me dêem comprimidos para me manterem viva à força, mas também não quero que mos facilitem caso venha a achar que já ando aqui a mais. Aliás, a mera possibilidade de me facilitarem a morte, caso esteja interessada, é um recado subliminar para tomar essa decisão quando a sociedade me fizer sentir que estou a mais.

longar a vida para lá do razoável e isso, para além de estúpido, não é natural.

A morte natural é portanto o princípio-chave, quando se fala do bem mais precioso que temos, exactamente porque não o dominamos. Abrir o precedente de querer dominar o destino da vida do outro é iniciar um caminho sem retorno e sem limites. Não é possível traçar uma linha divisória entre vidas que devem ser preservadas e outras que podem ser desperdiçadas. Quem o souber fazer, que atire a primeira pedra.

É por isto que sou contra a eutanásia. Para resolver os problemas de humanidade que se colocam no final da vida, bastam uma sociedade solidária e organizada e um testamento vital

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