www.dinheirovivo.ptdinheirovivo.pt - 15 fev 07:14

Vaping: Um mercado de 25 milhões feito de microempresas

Vaping: Um mercado de 25 milhões feito de microempresas

Associação em Portugal gostava que autoridades seguissem exemplo britânico, diferenciando impostos e incentivando a opção de produtos de menor risco.

Há meia dúzia de anos, eram 400 lojas, que empregavam 1500 pessoas e serviam 400 mil utilizadores. Agora, 20 anos depois de se estrearem em Portugal, e quando Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia e até Espanha estão a fazer caminho na condução dos fumadores para soluções de menor risco, do que os cigarros, as lojas de vaping estão a sofrer. “A posição da Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem alimentado muita desinformação, e o tempo que se levou a confirmar que as pessoas diagnosticadas com a doença pulmonar EVALI tinham posto substâncias ilegais no vaporizador levou a uma queda dramática no mercado”, explica Dídio Silvestre. Ao Dinheiro Vivo, o vice-presidente da APORVAP, que representa vendedores e utilizadores de cigarros eletrónicos, contabiliza cerca de 200 lojas de vaping abertas em Portugal (600 empregos), um mercado que ronda agora os 200 mil utilizadores e vale 25 milhões.

Os números datam de setembro, antes ainda de terem sido identificados nos EUA 2700 casos da doença pulmonar nomeada a partir das iniciais do que se julgava estar a provocá-la (EVALI = e-cigarette-or-vaping associated lung injury) e que fez 60 mortos. A OMS amplificou o suposto risco dos e-cigs mas demorou, lamenta Dídio, oito meses a repor a verdade entretanto descoberta nos hospitais: quem ficou doente usara o aparelho para fumar marijuana e outras substâncias ilícitas.

Entre a demora e a desinformação, a confirmação da presença de THC (tetra-hidrocanabinol, principal componente da canábis) nos dispositivos usados por quem adoeceu já não evitou a quebra nas vendas, que em Portugal superou 30% no último trimestre. “O impacto é mais preocupante na medida em que se trata de microempresas”, explica o responsável da APORVAP, situando a quebra nos 8 milhões.

“Não somos nem queremos que nos vejam como um produto farmacêutico. Somos uma alternativa de menor risco para fumadores, que os ajuda a deixar o tabaco. Descartá-lo como algo viciante e tão ou mais perigoso do que o cigarro é irresponsável (e falso)”, lamenta.

Centenas de estudos científicos independentes – muitos produzidos no Reino Unido, que lidera a campanha de saúde pública que incentiva a troca de cigarros por e-cigs, tabaco aquecido e outros de menor risco – revelam até menos 90% de substâncias tóxicas neste tipo de produtos. “E não há indício de que o vaping vicie”, sublinha Peter Hajek, admitindo que o e-cig “é uma ajuda” para deixar de fumar, até porque se pode controlar ou mesmo cortar a nicotina. “Menos de 1% de não fumadores que experimentaram ficaram utilizadores”, diz o líder do departamento de investigação da dependência de tabaco da Queen Mary University de Londres, que desmonta ainda a ideia de ser moda: “Nunca houve tão poucos jovens a fumar.”

Dídio Silvestre tem a mesma perceção e há razão para isso: o facto de o e-cig só se vender em lojas especializadas, onde só entram maiores de idade. “Não se vende a menores, não se vende a não fumadores. Não precisamos de novos utilizadores.”

A OMS, porém, não está nem perto de adotar a posição de “mal menor” que um número crescente de países está a seguir. “A visão radical da OMS é uma desilusão para mim, enquanto ex-diretor daquela casa. Andámos muito nestes 15 anos e o caminho fez-se graças aos produtos de risco reduzido, que todos os anos, só no Reino Unido, ajudam 40 a 70 mil pessoas a deixar de fumar”, diz Tikki Pang, que por mais de uma década liderou o departamento de investigação da organização. À dele juntam-se as vozes de outros cientistas, mas as autoridades portuguesas também têm sido pouco sensíveis aos argumentos de investigadores que defendem, por exemplo, impostos mais suaves para produtos alternativos aos cigarros, de forma a incentivar os fumadores a fazer a mudança.

Se nos primeiros anos o e-cig era diferenciado, desde 2015 é taxado como “produto com nicotina” – “o preço de uma garrafa de 10 ml subiu de um para 10,5 euros”, refere Dídio, que lamenta que haja quem defenda a duplicação do imposto para reduzir radicalmente o número de fumadores. “Quando o maço subiu de 12 para 40 dólares na Austrália, o número de fumadores só caiu 3%; já as vendas no mercado negro subiram em flecha.”

1
1