www.publico.ptpublico.pt - 14 fev 07:30

Uma “remontada” para a história

Uma “remontada” para a história

A reboque do jogo de amanhã entre o Barcelona e o surpreendente Getafe, recordamos a edição de 2006-07 da Taça do Rei.

Camp Nou encheu-se como de costume e, como era quase sempre regra, a equipa do Barcelona deu espectáculo: marcou cinco golos — um dos quais, de Lionel Messi, é considerado dos melhores da história do clube — e praticamente carimbou o bilhete para a final da Taça do Rei da época 2006-07. Depois do 5-2 da primeira mão, toda a gente olhou para o segundo jogo como um pró-forma. Toda a gente? Não. Nos arredores de Madrid, na pequena cidade de Getafe, um punhado de irredutíveis castelhanos tinha outras ideias. Numa das mais impressionantes “remontadas” de que há registo no futebol espanhol, o Getafe venceu por 4-0 e seguiu para a final.

De um lado, nomes como Puyol, Ronaldinho, Iniesta, Xavi ou Eto’o (mais Gudjohnsen e Saviola, que eram suplentes…), orientados pelo holandês Frank Rijkaard. Do outro, uma equipa que ainda acreditava no sonho de jogar a final da Taça, comandada pelo alemão Bernd Schuster. Quando a bola começou a rolar no pequenino Coliseu Alfonso Perez (apenas 17.393 lugares na altura, um dos mais pequenos da Liga espanhola), talvez só mesmo os mais indefectíveis adeptos do Getafe tivessem uma ténue esperança de que qualquer coisa de especial pudesse acontecer. Estavam prestes a presenciar a maior proeza da história do clube.

Em 1923, foi fundada a Sociedad Getafe Deportivo, que disputou os campeonatos das divisões secundárias entre 1928 e 1932. Mas em 1945, depois da Guerra Civil espanhola e do final da II Guerra Mundial, cinco cidadãos de Getafe decidiram que era preciso sonhar mais alto. Reuniram-se no bar La Marquesina e criaram o Club Getafe Deportivo, cuja data oficial de fundação é 24 de Fevereiro de 1946.

O sucesso desportivo não foi retumbante e o melhor que o novo clube da cidade, com cerca de 180.000 habitantes e conhecida por albergar uma das mais antigas bases da Força Aérea Espanhola e o campus da Universidade Charles III de Madrid, conseguiu foi passar seis modestas épocas (entre 1976 e 1982) na II Divisão. Por essa altura, em 1978, teve o seu primeiro duelo com o Barcelona na Taça do Rei — o empate em casa a três golos levantou algumas sobrancelhas, mas depois o “Barça” esmagou o adversário na segunda mão, com um cruel 8-0.

Pior ainda viria depois: no final da época de 1981-82, com ordenados em atraso, o clube foi despromovido e acabou mesmo por se dissolver. Mas já existia um embrião do que viria a ser a terceira vida do emblema desportivo de Getafe: em 1976 nascera o clube Peña Madridista Getafe, formado, como o nome indica, por adeptos do Real Madrid. O nome mudou depois para Club Deportivo Peña Getafe, até se fundir com o mais antigo Club Getafe Promesas, em 1982. A 8 de Julho de 1983 era oficialmente registado o Getafe Club de Fútbol. 

Nas quatro temporadas seguintes, o Getafe subiu quatro escalões, das divisões regionais até à II Divisão B. A trajectória ascendente continuou em 1994-95, com a subida à II Liga, mas a festa só durou dois anos: em 1997, salvou-se à justa de cair na quarta divisão e, provavelmente, desaparecer. Mas segurou-se e a carreira de altos e baixos, com mais episódios de dificuldades financeiras pelo meio, ganhou novo pico em 2002-03, quando uma vitória em Tenerife por 5-3 (com cinco golos de Sergio Pachón) lhe garantiu, pela primeira vez, a subida à I Liga. Em apenas duas décadas, o Getafe chegara ao topo.

Pachón estava no banco (e ainda entrou aos 75’) quando o Getafe recebeu o Barcelona nessa noite de 10 de Maio de 2007. Havia uma enorme desvantagem na meia-final da Taça, mas, de alguma maneira, os dois golos conseguidos em Camp Nou, na derrota por 5-2, deram aos homens do Getafe um ânimo especial. Mostraram que era possível ferir aquele poderoso adversário. O treinador Bernd Schuster animou as hostes — “Ele era um fenómeno para aquecer o ambiente e fazer com que todos acreditássemos”, explicou à Marca Javier Casquero, que marcou o primeiro golo da noite. 

Aconteceu aos 38’, após uma meia hora inicial equilibrada, mas com maior sinal de perigo para os da casa. Antes do intervalo, aos 42’, Daniel Güiza fez o 2-0 e colocou o Getafe a um golo da final da Taça. As emoções estavam ao rubro e a festa explodiu aos 71’, quando um livre apontado pelo romeno Cosmin Contra encontrou, na área, a cabeça de Vivar Dorado para o 3-0. A vinte minutos do final, o Getafe estava à porta da final da Taça e, com o gigante Barcelona completamente aturdido, a equipa da casa ainda fez o 4-0, novamente por Daniel Güiza, aos 74’.

Foram-se as dúvidas e as angústias, a noite foi de euforia. “Todos tínhamos o sonho enorme de poder jogar uma final da Taça do Rei”, recorda Vivar Dorado. Nas bancadas, em delírio, cantava-se “Si, si, nos vamos a Madrid”. O Getafe tinha feito história.

P.S. – A 23 de Junho de 2007, no Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid, o Getafe jogou a final da Taça do Rei, frente ao Sevilha. Perdeu por 1-0, golo de Kanouté aos 11’. Na época seguinte, voltaria a disputar o jogo decisivo, mas saiu novamente derrotado (1-3), frente ao Valência.

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