www.publico.ptpublico@publico.pt - 14 fev 11:15

Dom Quixote e as manchas de Alvalade

Dom Quixote e as manchas de Alvalade

O que uma maioria silenciosa seguramente não merecia era outro presidente que quisesse pô-la a ver a preto ou branco. Não é mesmo fácil ser do Sporting. Caramba.

Depois do episódio mais repudiante e fraturante da história do clube, Frederico Varandas sabia ao que ia quando se candidatou à presidência. Durante o primeiro ano de mandato em que se ganhou uma taça e outra tacinha, a verdade é que desportivamente conseguiu-se melhor do que seria expectável. Assim o ditou a seriedade na análise por parte de qualquer adepto que tivesse em conta o passado recente. O que a mim sempre me espantou durante todo esse certo estado de graça foi como nunca se questionou o que hoje está em xeque. Aliás, parece que isso não era um problema depois de Alcochete porque o líder da Juventude Leonina estava a ser julgado e os outros membros de uma qualquer direção dessa ou de outras claques eram irrelevantes.

Dirá quem se baseia na politiquice do lugar que existe um tempo para tudo. Assim foi e a guerra anunciada há poucos meses com circunstância fez corar quem constatava o descalabro do clube a todos os níveis. Um combate sempre necessário, portanto, mas fatalmente descoberto pela hipocrisia do momento.

Da realidade desportiva à quebra na marca do clube para índices poucas vezes vistos nos últimos dez anos, o Sporting apequenou-se antes disso. Pior: nesse tempo de contestação transversal a muitos sócios das bancadas superiores, centrais e laterais de Alvalade, Frederico Varandas, em constantes faltas de humildade e preparação, apequenava-o ainda mais. Sobretudo quando dava uma entrevista ou colocava a LPM a mediar o último disparate. O que conseguiu com isso foi fragilizar ainda mais a presidência. É uma pena essa falta de elevação, refém de qualquer arte e engenho para mudar o rumo das coisas. Também não faltou o comentador incauto que vive e respira futeboliquices para o apelidar de “Dr. Coragem.” Santa parvoíce de quem não percebe que a definição da palavra é incompatível com o cálculo do momento perfeito para o seu surgimento. O oposto dessa nomeação.

Até aos episódios mais recentes. Veja-se:

Dois ou três jagunços presumivelmente ligados à claque decidiram intimidar e agredir membros da direção do clube e a filha de um destes em Alvalade. Um episódio lamentável que só pode merecer a condenação completa de qualquer pessoa e sportinguista decente. Felizmente, pessoas que têm esta forma de agir e recorrem a estes comportamentos cobardes e violentos são uma minoria. Infelizmente e tal como noutros, por menor que seja a minoria, elas sempre existiram nos clubes. É por isso que a amplificação desta cruzada sem qualquer estratégia minimamente coerente que não seja a sobrevivência no cargo de um presidente inapto já adensa o desmantelamento lento do Sporting. Se dúvidas houvesse dessa desorientação, bastou mais uma vez ouvi-lo na entrevista do jornal da TVI desta segunda-feira.

Por um lado, a guerra é com as claques, mas, pasme-se, também não são para acabar! Até porque, pasme-se novamente, já pertenceu a uma delas. (Pergunto: quando é que o Sporting elege um presidente que nunca tenha pertencido a nenhuma?)

Por outro, deve-se ir atrás das direções dessas mesmas claques. Os líderes têm nomes, referiu. Pois têm, a maioria já estão indiciados pela polícia e outros de mãos atadas porque aguardam julgamento por uma qualquer barbaridade cometida. Como ficamos, afinal?

Pouco ou nada disso importa ao novo Dom Quixote de Alvalade que pede “barulho” à maioria silenciosa que só pode estar com ele nesta cruzada. Fica-se é sem perceber o que é e para que serve ao certo esse ruído. Já o outro alcance é bem percetível: Frederico Varandas quer que os sportinguistas voltem à visão do preto ou branco. Ou estão com ele neste combate contra incertos e a contestação desaparece ou é o caos e o poder fica na mão dos dez gatos pingados e arruaceiros da claque. Mais grave, todo este putativo cenário surreal e irreal é amplificado ao máximo, prejudicando o clube, mas salvaguardando-o a ele, presidente. Assim se vive o rescaldo dos episódios de uns míseros pouco representativos do que seja pelas bandas de uma entidade centenária que já foi séria e a que pertencem milhões de portugueses.

Há sempre um ligeiro raio de sol que começa a surgir depois de um nevoeiro intenso e o facto da inépcia da direção nesta cruzada andar de mãos dadas com a da gestão do clube bem que o pode ser. Pelo menos, é difícil não topar a hipocrisia.

O que uma maioria silenciosa seguramente não merecia era outro presidente que quisesse pô-la a ver a preto ou branco.

Não é mesmo fácil ser do Sporting. Caramba.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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