expresso.ptexpresso.pt - 14 fev 17:22

75 anos do bombardeamento de Dresden: ação militar legítima ou crime de guerra?

75 anos do bombardeamento de Dresden: ação militar legítima ou crime de guerra?

Quando passam 75 anos sobre um episódio horrendo da II Guerra Mundial, a questão permanece aberta

Entre 13 e 15 de fevereiro passam 75 anos sobre uma das mais polémicas ações militares dos Aliados durante a II Guerra Mundial: o bombardeamento de Dresden. Jóia do barroco que tinha escapado a cinco anos de devastação contínua, em parte graças ao seu estatuto cultural, Dresden era uma das mais belas cidades da Europa. Em 1945, a sua sorte chegou ao fim.

Oficialmente, o bombardeamento visava destruir fábricas que havia na cidade e interromper linhas de comunicação vitais. Na verdade, tais objetivos sempre foram questionáveis, e o facto de a cidade nesse momento ter uma grande concentração de idosos - a parte da população que não conseguira fugir - bem como de refugiados vindos de leste, pôs sérias dúvidas sobre a legitimidade ou a necessidade dele, num momento em que o avanço russo era imparável e a Alemanha essencialmente já tinha perdido a guerra.

Fred Ramage/Getty Images

A 13, começaram os ataques, prolongando-se pelo dia e a noite seguintes. Os aviões ingleses e americanos começaram por deitar foguetes lança-fachos para iluminar o caminho, seguindo-se explosivos de alta potência e bombas incendiárias. No final, Dresden estava destruída, e 25 mil pessoas tinham perdido a vida num inferno que ficou na História como um caso de estudo do chamado bombardeamento de saturação - aquele onde o objetivo não é atingir alvos precisos, mas destruir tudo aquilo que se encontrar numa determinada área. (Outro bombardeamento do mesmo tipo, esse efetuado pelos EUA, teria lugar em Tóquio no mês seguinte; aí perderam a vida cem mil pessoas.)

O bombardeamento de saturação - carpet bombing em inglês - passaria mais tarde a ser formalmente classificado como crime de guerra, o que não impediu que continuasse a ser utilizado em guerras diversas. Mas logo em fevereiro de 1945 o primeiro-ministro Winston Churchill exprimiu reservas num memorando onde dizia ser tempo de examinar "a questão do bombardeamento de cidades alemãs simplesmente para incrementar o terror, ainda que sob outros pretextos", reconhecendo que a destruição de Dresden punha questões em relação à condução da guerra pelos Aliados. O militar que comandava os bombardeamentos, Arthur Harris, conhecido como 'bomber Harris', rejeitou qualquer ideia de que as cidades alemãs pudessem ser poupadas às bombas, e Churchill acabou por emendar o seu memorando no sentido de dizer o que achava que os bombardeamentos deviam ser: "examinados na perspectiva dos nossos próprios interesses".

Desde essa altura o debate continuou, e não apenas entre os defensores dos direitos humanos e da lei internacional. Dresden tornou-se uma causa favorita da extrema-direita e dos neo-nazis, alimentada por estatísticas de mortes muito inflacionadas que têm a sua origem na propaganda nazi da altura. A imprensa alemã falou em 200 mil mortes, o que será entre oito e nove vezes o número real. Em 1963, um livro do historiador revisionista David Irving deu crédito a essas estatísticas, e o facto de ele próprio ter mais tarde admitido que eram exageradas não as impediu de continuarem a circular.

Gabriel Kuchta/Getty Images

Terça-feira à tarde, nas comemorações do 75.º aniversário do bombardeamento, voltou-se a falar em reconciliação. Desde 1956 que Dresden está geminada com Coventry, uma cidade inglesa onde bombardeamentos alemães tinham morto 1200 pessoas e destruído a sua catedral. Alguns dos edifícios mais icónicos de Dresden, entre eles a sua famosa ópera, foram reconstruídos de forma quase miraculosa entre os anos 80 e 90. Mas a reconciliação com o passado não se fica pela arquitetura.

O presidente alemão Frank-Walter Steinmeier disse: "O bombardeamento de Dresden recorda aos alemães a destruição da democracia, a arrogância nacionalista, o desprezo pela humanidade, o antissemitismo e o fanatismo racial". Dizendo recear "que estes perigos não tenham sido banidos até hoje" e que estejam a infiltrar as instituições e a vida pública no pais, avisou que não basta os democratas distanciarem-se desses fenómenos com repugnância. "Nada disto deve ficar sem contestação no nosso país. Temos de rejeitar o ódio e o incitamento, contestar os insultos, contradizer o preconceito."

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