www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 14 fev 09:00

As pistolas de água

As pistolas de água

Ter uma pistola de água com a forma de um golfinho era o máximo que eu conseguia - Opinião , Sábado.
Naquela altura da vida eu ainda não sabia o que era a guerra mas já desconfiava que quem não tivesse uma pistola de água estava em piores lençóis que quem chegasse armado ao recreio. Longe de imaginar o que seriam rockets, sabia bem o que era levar com um balão de água em cheio nos pés. E se havia batalha que temia era a das bombas de mau cheiro – na escola corria a lenda da professora que deixara os alunos fechados na sala uma hora a escrever a palavra "ricochete" no quadro.

Tirando os professores, os adultos eram engraçados: passavam a vida a dizer-nos que o certo era o certo e o errado o diabo, mas depois, quando chegava o Carnaval, deixavam-nos ir à papelaria comprar o arsenal completo para um mês de Guerra do Golfo. A nossa máscara preferida implicava a réplica perfeita de uma AK-47? Era Carnaval, não fazia mal.
Quando digo adultos não me refiro aos meus pais, felizmente. Ter uma pistola de água com a forma de um golfinho era o máximo que eu conseguia. Para garantirem que não fosse uma criança normal (e transformasse a semanada em estalinhos) deixavam cair, engenhosa e casualmente, histórias tristíssimas de crianças que tinham ficado sem dois dedos à conta "dessa brincadeira".

Eu tinha medo, claro, mas tinha ainda mais pena de não alinhar nas trincheiras, por isso, quando os meus amigos carregavam os bolsos de bombinhas, eu arranjava maneira de ser o cérebro da operação e montar o assalto perfeito (recordando: os estalinhos e as raspadinhas só faziam barulho mas, à época, pregar um susto a um colega de turma era suficiente para ganhar a batalha da vida).

Tive sorte e nunca me magoei. Ter deixado o meu melhor amigo encharcado com fogo amigo terá sido dos meus maiores feitos; ter-me feito dar um salto ao virar de uma esquina o dele. Foi divertido? Foi, mas só porque mantivemos os dedos. Dedos que agora me dão jeito para escrever isto: os adultos que acham que no Carnaval vale tudo – até pôr armas de brincar na mão de crianças – não são engraçados, são estúpidos. Brincam com o fogo. capa Assine já a Sábado digital por 1 euro para ler este artigo no ePaper ou encontre-o nas bancas a 12 de fevereiro de 2020.
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