rr.sapo.ptOpinião de João Ferreira do Amaral - 14 fev 06:16

​A incómoda independência

​A incómoda independência

Se há coisa que os quase 900 anos de história de Portugal demonstram é o benefício da independência política.

Contra todas as probabilidades, dada a situação geográfica que ocupamos e a nossa reduzida dimensão demográfica, temos conseguido desenvolver uma história e uma cultura próprias e representar um papel mundial assinalável. Nada disto seria possível sem a independência. Bastam os sessenta anos do período em que estivemos sob dominação filipina para servir como contra-exemplo. Se não tivéssemos restaurado a independência, não existiria hoje o Brasil, o nosso território seria uma zona despovoada do estado espanhol e o Português uma língua morta ou sobrevivendo artificialmente.

Dito isto, não convém esquecer que parte significativa das chamadas elites portuguesas sempre se incomodou com a nossa capacidade de autogoverno, preferindo servir como subordinada de outros estados, o espanhol e não só.

Uma forma diferente de subordinação é o que o propõe o federalismo europeu, justificando a proposta de eliminar os estados nação que constituem a União Europeia substituindo-os por estados federados sem qualquer papel internacional. Confunde-se intencionalmente as exigências de cooperação que a globalização impõe com uma suposta e mais que falaciosa ideia que os estados de menor dimensão não podem sobreviver como estados independentes.

E até surpreendente verificar que, mesmo conhecendo a experiência do período filipino e o que se passa com a actual Catalunha, existam propostas portuguesas de união com Espanha. Propostas que, curiosamente só têm eco aprovador em Espanha (e isto devia-nos fazer pensar).

Não, não há razão nenhuma para transmitir a ideia que Portugal não pode ser independente porque no mundo de hoje tal não é possível. É falso.

O que precisamos é continuar a dispor de instrumentos que nos permitam gerir o nosso quinhão das interdependências mundiais ao serviço dos interesses nacionais. Já cedemos instrumentos em demasia para as instituições comunitárias. Não é solução estar a ceder o que resta ao centralismo espanhol. Pelo contrário, é do nosso interesse lutar para reaver alguns dos instrumentos que cedemos precipitadamente e ingenuamente ao centralismo europeu.

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