expresso.ptSandra Maximiano - 13 fev 15:47

É (ir)racional ter medo?

É (ir)racional ter medo?

Opinião de Sandra Maximiano

O coronavírus que já infetou mais de 44 mil na China continental e causou mais de um milhar de mortos, tem causado pânico, preconceito e xenofobia contra o povo chinês e todos aqueles que há primeira vista são identificados como chineses. Estamos a enfrentar não apenas o perigo de uma epidemia biológica, mas também sociológica, que pode criar fissuras duradouras nas comunidades e exacerbar o impacto social e económico da epidemia. Mas é irracional ter medo?

A visão de que o medo é uma emoção bloqueadora do pensamento racional e da felicidade remonta a Aristóteles e a outros filósofos gregos da antiguidade. Mas, face a um perigo iminente, o medo pode ser racional porque nos impele a reagir. Por exemplo, se um cão se dirigir a nós de forma explicitamente agressiva, o medo faz com que fujamos ou que gritemos por ajuda.

No que respeita ao coronavírus, e epidemias de doenças infecciosas em geral, temos uma tendência para exageros emocionais. A nível comportamental destaco duas explicações. Primeiro, microrganismos desconhecidos desencadeiam níveis de ansiedade e medo desproporcionais porque as pessoas sentem que não têm controlo. As doenças que mais matam, como as doenças cardíacas e a diabetes, causam menos pânico, porque são consideradas doenças “de como vivemos” e não “de quem encontramos”, aumentando a sensação de controlo sobre elas. Segundo, nas doenças transmissíveis, o medo passa a estar mais dirigido ao outro e não tanto à própria doença. O outro passa a ser a ameaça, sobretudo se for membro de um grupo que se acredita que mais provavelmente está infetado.

Há também explicações evolucionistas e biológicas. Ao que parece, tememos doenças repentinas e infecciosas da mesma forma que, evolutivamente, estamos “programados” para temer cobras. Grande parte de nós tem receio delas sem nunca ter estado em contacto com uma. A nível cerebral, a amígdala, que é responsável pela aprendizagem do medo, faz com que criemos relações entre eventos adversos e estímulos ambientais, relações essas que são mais rapidamente construídas quando a ameaça é uma doença infecciosa. Assim sendo, se sentirmos medo porque alguém espirrou num transporte público, a amígdala pode ser a responsável por essa reação.

O medo é irracional quanto mais acreditarmos, sem fundamento, que o perigo é real. Para quebrar a irracionalidade é preciso, por um lado, boa informação, que nos ponha os números da epidemia em perspetiva e, por outro, muita confiança nas instituições nacionais e internacionais. Para serenar a preocupação é preciso acreditar que há quem esteja preocupado e a tomar as medidas certas.

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