www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 13 fev 15:34

No dia mundial da rádio, uma palavra: podcast

No dia mundial da rádio, uma palavra: podcast

É a liberdade do podcast que me fez (re)apaixonar por um formato que se estava a perder, o da palavra, dos seus múltiplos sentidos e dos programas de autor. Nos últimos anos fiz muitas experiências, umas melhores, outras assim-assim, outras nem por isso, para perceber que, muito embora a rádio possa continuar a piscar-me o olho, é aqui que gosto de estar. - Opinião , Sábado.

Mentiria se ignorasse este dia, se dissesse que não é importante para mim porque, na verdade, o dia Mundial da Rádio recorda-me sempre essa paixão que apenas a rádio consegue conjugar: a palavra escrita e a oral, combinadas numa miríade de sons que provocam em nós as mais diversas sensações. Recordo sempre Fernando Alves, quando dizia que, se matarmos a palavra, estamos a matar o que nos levou à rádio. Talvez seja essa a razão da emergente popularidade desse fenómeno que a rádio também abraçou, mas só devagarinho, sem grande compromisso, dos podcasts e dos seus ouvintes, que se multiplicam de dia para dia, alguns dos quais sem nunca terem sido ouvintes da rádio. 

É a liberdade do podcast que me fez (re)apaixonar por um formato que se estava a perder, o da palavra, dos seus múltiplos sentidos e dos programas de autor. Nos últimos anos fiz muitas experiências, umas melhores, outras assim-assim, outras nem por isso, para perceber que, muito embora a rádio possa continuar a piscar-me o olho, é aqui que gosto de estar. Fui espreitar essa coisa moderna de ser influencer, misturei-me para ver como era e concluir o que já sabia: sempre fomos todos influenciadores, sempre tivemos colegas de turma com egos maiores do que a sala de aula e outros cujo egocentrismo precisava de um certo arrebatamento colectivo. Mudou apenas a escala: somos, quase todos, os mais famosos lá do bairro.

Os limites do bairro alargaram-se e a aldeia global é uma aparente verdade porque, no final das contas, acabamos sempre rodeados daqueles que nos conhecem a gargalhada e as lágrimas, muito diferente daquilo que mostramos na rede que estiver na moda. Já foi o Facebook, cada vez mais domínio de boomers, agora é o instagram e, quando os miúdos se cansarem do tik-tok, será a nossa vez de brincar aos vídeos cheios de efeitos. Confesso que me cansei de brincar aos influencers de ego insuflado, de falar de um estilo de vida que era apenas uma vida com estilo e de colocar o meu ego à frente da minha mensagem, num processo que me fez refém das estratégias de crescimento que privilegiam o imediato, o que parecemos e não necessariamente o que somos. Nesta espiral, depois de provar todas as hipóteses e explorar diferentes caminhos, parei. E parei porque neste universo de influencers (o que não é exactamente o mesmo que ser influenciador) há muitos aspectos com os quais não concordo, principalmente o da fabricação do real e da exploração da vaidade pessoal, com demasiadas pessoas a partilhar o seu estilo de vida, confundindo-o com competências nas mais diversas áreas, numa estrutura de comunicação e conhecimento que cria uma enorme ansiedade naqueles que podem, com base no seu conhecimento e aptidões técnicas, realmente influenciar. 

O mundo está cheio de influencers com os seus fashion-beauty tutorials, influenciadores que se confundem com gurus, outros que se tornam empreendedores criando negócios a partir das suas paixões, e líderes de opinião que partilham nas redes o que publicam nos media. Há também um outro pequeno grupo que tive o prazer de descobrir, ao qual chamo as #influenciadorasdobem, composto principalmente por mulheres dedicadas a uma causa, construindo a sua narrativa misturando parte do seu estilo de vida com a mensagem que pretendem transmitir. Invariavelmente, relaciona-se com a necessidade de, juntos, construirmos um mundo melhor. É por elas que regresso depois de, no final de 2019, anunciar o fim do urbanista. O blog-podcast-influencer-whatever teve um princípio, meio e fim. Cumpriu parte dos seus objectivos, fez-me crescer enquanto pessoa e profissional, levou-me a ver coisas que não imaginei e a reflectir sobre tantas outras que me trazem hoje aqui, de volta àquilo que, acho, sei fazer melhor: partilhar. 

Aproveito o Dia Mundial da Rádio para regressar. Gosto da ironia dos dias icónicos. O Urbanista começou no primeiro dia de primavera e hoje regressa, numa versão 2.0, para partilhar o que aprendi, o que continuo a aprender e tudo o que poderei descobrir para ser útil a quem se quer afastar do caos em que nos encontramos. O urbanista 2.0 é um podcast no qual partilho as mais recentes investigações científicas, histórias inspiradoras e experiências para todos os que procuram uma vida com mais significado, menos ruído e elementos tóxicos. Como disse um dia, pessoas e coisas maravilhosas.

Namaste e feliz dia da rádio.

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