expresso.ptexpresso.pt - 16 jan 00:16

Paramilitares chavistas disparam contra deputados de Guaidó

Paramilitares chavistas disparam contra deputados de Guaidó

“Terroristas armados tentaram linchar-nos, ouviram-se detonações. O veículo tem uns impactos, alguns parecem ser de balas. O mais grave é que tudo foi amparado pela Força Armada”, denunciou o deputado Carlos Berrizbeitia, segundo vice-presidente da Assembleia Nacional e um dos cinco integrantes da delegação agredida

O golpe legislativo do chavismo contra Juan Guaidó e contra o Parlamento democrático viveu esta quarta-feira um novo capítulo violento nas imediações do Palácio Federal Legislativo de Caracas. A comissão enviada por Guaidó ao hemiciclo sofreu uma emboscada, a tiros e a golpes, quando pretendia aceder à Assembleia Nacional (AN), tomada pelos militares desde 5 de janeiro passado.

“Terroristas armados tentaram linchar-nos, ouviram-se detonações. O veículo tem uns impactos, alguns parecem ser de balas. O mais grave é que tudo foi amparado pela Força Armada”, denunciou o deputado Carlos Berrizbeitia, segundo vice-presidente da AN e um dos cinco integrantes da delegação agredida. “Tentaram matar-nos, dispararam quatro ou cinco vezes”, acrescentou a parlamentar Delsa Solórzano, que também fazia parte da comissão, juntamente com o primeiro vice-presidente, Juan Pablo Guanipa, e os parlamentares Carlos Prosperi e Ángel Palmeri.

Coletivos radicais e paramilitares chavistas mantêm o controlo do centro administrativo de Caracas, com a condescendência e a cumplicidade de militares e de policias. Assim que reconheceram os jornalistas e a comissão da oposição, cuja missão era comprovar se esta quarta-feira poderiam aceder ao hemiciclo, arremeteram contra todos. Golpearam e roubaram os primeiros e chegaram mesmo a disparar contra os segundos, de acordo com a denúncia efectuada pelo próprio Juan Guaidó, presidente legítimo da AN.

“Há um atentado claro, eles foram brutalmente emboscados. Grupos armados e grupos civis da ditadura tomaram de novo a AN. A Força Armada foi cúmplice desses colectivos”, denunciou Juan Guaidó durante a sessão parlamentar que foi posteriormente celebrada no anfiteatro de El Hatillo, no leste de Caracas. O chefe do poder legislativo tem poder para convocar plenários no exterior do Hemiciclo. “Foi um atentado paramilitar”, certificou o comissário Humberto Prado.

Os paramilitares actuaram de novo com impunidade e violência, que no passado dia 7 fora aplicada contra jornalistas e mesmo contra diplomatas europeus. Desde que o chavismo pôs em marcha no dia 5 uma operação para retirar da presidência do Parlamento Guaidó e a maioria opositora já se viveram três jornadas violentas na sede do poder legislativo.

A revolução impôs à força um grupo de deputados “traidores”, que haviam sido expulsos da Unidade Democrática e investigados por aceitarem subornos de milionários 'boliburgueses' [a oligarquia que cresceu sob a protecção do governo]. Em primeiro lugar, Luis Parra, fraudulento presidente da AN, embora nem sequer tivesse os votos necessários para ganhar uma votação que tão pouco se realizou. Enquanto era levado a cabo a operação afeta ao regime, dirigida pelo ex-ministro chavista Francisco Torrealba, Guaidó e dezenas de deputados da oposição lutavam no exterior do Palácio Legislativo contra a Guarda Nacional Bolivariana (GNB), que impedia à força a sua entrada.

Especialistas da indústria petrolífera e deputados da Comissão de Finanças do Parlamento já denunciaram que nesta tomada da AN se oculta o interesse da Rússia em “legalizar” os seus convénios com o governo. A administração de Vladimir Putin foi a primeira (e a única, além de Cuba) a reconhecer de forma imediata o falso presidente Luis Parra.

Os russos teriam imposto a Maduro que o Parlamento (ainda que de forma ilegal e fraudulenta) aprove concessões de campos petrolíferos em troca de pagamentos de dívida e de dinheiro vivo, que tanta falta faz para olear a máquina de controlo social da revolução. Desta forma, Moscovo contaria também com algum apoio jurídico perante futuras demandas internacionais, já que a Constituição obriga a que qualquer acordo desse tipo alcançado pelo Executivo seja referendado pelo Parlamento.

A manobra do regime suscitou repúdio em boa parte do país, mas foi a Igreja Católica, a instituição mais respeitada na Venezuela segundo diversas sondagens, que ergueu a voz de forma mais intensa. “Um povo atraiçoado por mercadores da política, vendidos por quatro moedas que decidiram servilmente pôr-se à disposição daqueles que são os principais causadores de toda esta tragédia que vive o povo venezuelano, atentando contra a integridade do único poder público legitimamente constituído na Venezuela”, censurou monsenhor Víctor Hugo Basabe, bispo de San Felipe, durante a sua homilia na procissão da Divina Pastora.

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