rr.sapo.ptrr.sapo.pt - 16 jan 06:33

Soldado, escritor e herói. Avô madeirense do realizador Sam Mendes inspira filme “1917”

Soldado, escritor e herói. Avô madeirense do realizador Sam Mendes inspira filme “1917”

“1917” é um filme passado na Primeira Guerra Mundial. Foi inspirado na história do avô de Sam Mendes, que era de origem madeirense. A Renascença falou com Jo-Anne Ferreira, a bisneta de Alfred Mendes que sobreviveu às trincheiras.

Vencedor de dois Globos de Ouro e nomeado para 10 categorias dos Oscar, o novo filme do realizador Sam Mendes estreia em Portugal na próxima semana. É inspirado na história pessoal do avô do realizador. Alfred Mendes foi um sobrevivente nas trincheiras da guerra, mas também um reconhecido escritor em Trinidad e Tobago, o estado das Caraíbas, onde viveu e escreveu sobre os portugueses.

Ainda hoje Alfred Mendes é conhecido em Trinidad e Tobago, como “Alfy”. Nascido no século XIX, o avô do realizador Sam Mendes liderou aquele que ficou conhecido como o primeiro movimento moderno da literatura caribenha. Chegou mesmo, com outros amigos escritores a fundar uma revista, a 'The Beacon' que deu expressão a essa produção literária.

Alfred Mendes, avô do realizador Sam Mendes. Foto: DR

Em entrevista à Renascença, a partir de Trinidad e Tobago, Jo-Anne Ferreira, explica que Alfy “foi um dos grandes escritores do período dos anos 30 e 40. Escreveu dois romances, vários contos e mais de 60 poemas”. A professora de linguística na Universidade das Índias Ocidentais que estudou a obra deste autor diz que Alfy já “foi reconhecido pela Universidade das Índias Ocidentais pela sua contribuição”

Bisneta de madeirenses, Jo-Anne fala da produção literária do avô do realizador Sam Mendes. “Ele foi o primeiro a escrever sobre a comunidade portuguesa de origem madeirense aqui. No romance falou sobre as tensões entre a comunidade madeirense católica e a comunidade madeirense presbiteriana, porque a mãe dele era católica e o pai era presbiteriano. Os presbiterianos vieram para aqui por causa das tensões socio-religiosas no século XIX na Madeira” conta em português esta académica que promove uma página nas redes sociais que congrega a comunidade de origem lusa.

Alfred Mendes escreveu sempre em língua inglesa, entre as suas obras estão livros como “Pitch Lake: A Story from Trinidad” ou “Black Fauns”. Segundo o relato de Jo-Anne Ferreira “todos os livros estão agora disponíveis”. O facto de haver interesse do neto, Sam Mendes sobre a história do seu avô, pode ter contribuído para isso, segundo esta bisneta de madeirenses. Nas suas palavras, Alfred Mendes “é um Herói Nacional.”

O filme de Sam Mendes sobre o seu avô herói

Foi a história pessoal de Alfred Mendes que inspirou o neto, Sam Mendes a realizar o filme “1917” que estreia dia 23 no grande ecrã em Portugal. Alfred Mendes guardou as suas memórias em silêncio até á década de 70 quando contou como foi mobilizado para a Guerra e serviu em França, no batalhão “King's Royal Rifles”. Tinha então, apenas 19 anos e era conhecido pela sua bravura. O Major General Matheson que comandava a quarta divisão referiu-se de forma elogiosa ao desempenho de Mendes que mesmo de baixo de fogo mostrava “bravura e devoção”. Essa atitude vale-lhe uma medalha militar.

Escolhido como mensageiro entre trincheiras, por ser ágil e de estatura pequena, Alfred Mendes foi viver para Trinidad e Tobago depois da guerra. A sua história, está agora espelhada no filme “1917” filmado com grande ação e ritmo. A pelicula do mesmo realizador de “Beleza Americana” chega agora a Portugal, mas já foi estreada em Trinidad e Tobago. Segundo Jo-Anne Ferreira, o filme “foi super bem-recebido”. A luso-descendente fala mesmo em “orgulho” da população que viu um herói nacional ser mencionado na cerimónia dos Globos de Ouro.

Em entrevista À Renascença, noutro fuso horário, Jo-Anne Ferreira fala orgulhosamente em português a partir de Trinidad e Tobago onde há uma comunidade de luso-descendentes há mais de 185 anos. São sobretudo “filhos, netos e bisnetos de açorianos e madeirenses”, explica-nos esta bisneta de madeirenses que indica ainda “que os filhos e netos têm direito a pedir a cidadania portuguesa e há um movimento que cresce cada vez mais de pessoas que querem tornar-se cidadãos portugueses.”

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