expresso.ptexpresso.pt - 16 jan 11:59

Chuva chega a zonas ardidas, mas não basta para apagar fogos na Austrália

Chuva chega a zonas ardidas, mas não basta para apagar fogos na Austrália

Os mil metros que se sobe, ao longo de 50 quilómetros de curvas, da costa a sul de Sydney ao Parque Nacional Monga, mostram porque é que a Kings Highway esteve fechada desde o início do ano

Dos dois lados da estrada, praticamente só se vê árvores queimadas, marcas de um fogo que galgou aceleradamente os altos e baixos dos montes do que é um dos maiores parques desta região.

"O fogo varreu 15 quilómetros em 25 minutos", conta a funcionária de um café em Braidwood, uma pequena vila histórica, já depois dos montes, onde o parque nacional deu lugar a planície e o fogo não chegou.

"É uma tragédia", diz, enquanto serve 'cappuccinos' e 'lattes' a clientes, a maioria residentes. São poucos os turistas no que é a época alta do ano por estas bandas.

Praticamente deserta - a Kings Highway reabriu na terça-feira, mas só hoje começou a ter mais trânsito -, a principal via de ligação entre a capital australiana e a costa, é um símbolo da devastação dos fogos australianos.

Aqui e ali alguns habitantes - as casas foram poupadas às chamas que queimaram quase tudo à sua volta - estavam hoje em limpezas, empilhando troncos carbonizados e restos de árvores.

Uma limpeza antes da chuva que hoje chegou à região, infelizmente tarde para os fogos e insuficiente para evitar novos incêndios se o tempo seco voltar.

Várias estradas rurais continuam com sinais de proibição de passagem e algumas equipas de funcionários autárquicos, com camiões e retroescavadoras, removem restos de árvores mais próximo da estrada.

Esta zona, e especialmente mais para sudeste daqui, ao longo de toda a costa do estado de Nova Gales do Sul e da vizinha Victoria, foi das mais afetadas pelos incêndios.

E quase parece ironia que seja dias depois de alguns dos grandes focos de incêndio terem sido apagados, num intenso combate de bombeiros e residentes, que a chuva finalmente chega: tempestades fortes e muita chuva, em alguns locais, durante a madrugada.

A chuva que hoje chegou à zona leste da Austrália encheu a imprensa e as redes sociais de imagens de celebração.

A ABC Rádio Rural entrevistou Nick Andrews, um tosquiador de lã numa propriedade em Broken Hill, no interior de Nova Gales do Sul (NSW), que tinha prometido deixar crescer a barba até que chovesse mais de um milímetro num dia.

Entre ontem e hoje a propriedade recebeu 35 milímetros: o homem cortou a barba, que a seca tinha obrigado a deixar crescer 21 meses.

Noutra imagem que se tornou viral, o vídeo de um menino de 18 meses, Sunny McKenzie, que vive numa propriedade em Scone, a 280 quilómetros noroeste de Sydney, e que nunca tinha visto chuva na vida.

"O Sunny tem 18 meses e nunca tinha sentido chuva. Ele adorou", conta a mãe, Fannie, enquanto mostra aos jornalistas o vídeo do miúdo a brincar à chuva.

Em zonas como Coonamble, onde também choveu a sério pela primeira vez em longos meses, crianças e adultos vieram para a rua apanhar chuva.

Mas nem tudo foram boas notícias. A chuva levantou preocupações sobre o impacto que a água com cinzas arrastadas pode ter nas bacias hidrográficas.

Em algumas zonas, a chuva só serviu para tirar o pó a áreas onde o solo estava, em alguns casos, gretado pela seca. Seriam precisos muitos dias consecutivos de chuva assim.

Na fronteira entre NSW e Victoria, por exemplo, onde ainda ardem dezenas de fogos de maior dimensão, a chuva chegou, mas não foi suficiente.

Fontes dos serviços de emergência confirmaram à Lusa que em Victoria ardem 18 fogos e 80 em NSW e que no Parque Nacional de Grande Otway (Victoria) a trovoada provocou dois novos fogos.

Isto mostra que a época de fogos, responsável por 28 mortos e a destruição de 10 milhões de hectares, ainda não acabou.

Em Melbourne, que esta semana esteve entre as cidades mais poluídas do mundo, a chuva foi tanta que até houve pequenas cheias em alguns locais.

E há receios de que as tempestades previstas no fim de semana possam voltar a trazer problemas adicionais para os serviços de emergência, que ainda têm um longo trabalho pela frente em muitos locais do país.

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